Não estava com intenções de fazer um relato sobre esta corrida, mas passei por tanta coisa que acho que merece.
A preparação
Já não fazia uma prova a sério desde o Trail Nocturno de Óbidos e a última prova em estrada foi a XI Memorial Francisco Lázaro, em Julho deste ano. Por questões profissionais tive que ir para o estrangeiro, o que me possibilitou ter mais disciplina nos meus treinos e levar a Maratona do Porto mais "a sério". Na altura pensei: "ok, para fazer um tempo entre as 3h50m e as 3h55m preciso de fazer X treinos, sem distracções e com a mente focada isto vai ser "peanurs"! A Maratona de Badajoz em Março correu tão bem e fiz um tempo que não estava a espera (3h59m), vai ser impossível que esta corra mal".
Não que eu seja uma maluquinha dos tempos, até nem gosto de pensar nisso. Só que estou numa altura em que correr por correr não é suficiente; são necessários estímulos para que o processo de treino seja mais tolerável e a prova menos dolorosa. Não basta aparecer na prova (seja lá qual ela for) e ver o que dá, a corrida implica sempre algum trabalho e dedicação. Mas no final de tudo, o tempo não interessa para nada (como vão ver mais daqui a pouco).
Os treinos correram mais ou menos como o previsto, com sessões de ginásio, algumas corridas semanais e uma corrida longa ao fim-de-semana. Por isso fiquei bastante motivada que iria conseguir atingir o meu objectivo. O problema foi que só pensei em comparar os meus treinos para a Maratona do Porto com os de Badajoz, já no último mês de treino. Apesar das actividades terem sido mais frequentes intensas, a verdade é que tinha corrido menos. E por muitas aulas de HIITS e SPRINTS que se faça, sem correr não se vai a lado nenhum. Lembro-me sempre de uma frase que vi no facebook que dizia:
Como não tinha introduzido grande "sofrimento" nos treinos (fiz algumas séries e algumas parkruns a batalhar na passada), comecei a questionar-me se o objectivo poderia ser concretizado...
O dia anterior à prova
Mais uma vez fui à boleia da família Santiago na madrugada de Sábado. Não iam propriamente motivados porque porque meu irmão tinha feito a Maratona de Lisboa há duas semanas, e a Maratona dos Marines na semana anterior. Esta seria "mais uma" para ele. A chuvada de sexta-feira e o que estava a chover quando saímos também não dava grande esperança para que o fim-de-semana fosse solarengo. Mas até isso tentei monitorizar, e duas semanas antes da prova (maluquice!! sim eu sei...) ia averiguando a meteorologia para o fim-de-semana da prova, por isso já sabia que não haveria motivos de preocupação em relação a isso.
A meio da manhã fomos à Expo Maratona do Porto e sinceramente pensei que fosse muito semelhante às entregas de dorsais de Lisboa, até porque os patrocinadores são os mesmos. Mal sabia eu do que me estava à espera.... Percebe-se logo que a dimensão da expo é bem maior do que a de Lisboa (apesar da zona reservada à venda de material continuar a ser apertada). Para além disso, há uma preocupação em envolver os participantes e famílias no espírito da Maratona, através de vídeos e de pequenos pormenores espalhados pela expo. É impossível não entrar no espírito logo no momento do levantamento do dorsal!
Como não tinha introduzido grande "sofrimento" nos treinos (fiz algumas séries e algumas parkruns a batalhar na passada), comecei a questionar-me se o objectivo poderia ser concretizado...
O dia anterior à prova
Mais uma vez fui à boleia da família Santiago na madrugada de Sábado. Não iam propriamente motivados porque porque meu irmão tinha feito a Maratona de Lisboa há duas semanas, e a Maratona dos Marines na semana anterior. Esta seria "mais uma" para ele. A chuvada de sexta-feira e o que estava a chover quando saímos também não dava grande esperança para que o fim-de-semana fosse solarengo. Mas até isso tentei monitorizar, e duas semanas antes da prova (maluquice!! sim eu sei...) ia averiguando a meteorologia para o fim-de-semana da prova, por isso já sabia que não haveria motivos de preocupação em relação a isso.
A meio da manhã fomos à Expo Maratona do Porto e sinceramente pensei que fosse muito semelhante às entregas de dorsais de Lisboa, até porque os patrocinadores são os mesmos. Mal sabia eu do que me estava à espera.... Percebe-se logo que a dimensão da expo é bem maior do que a de Lisboa (apesar da zona reservada à venda de material continuar a ser apertada). Para além disso, há uma preocupação em envolver os participantes e famílias no espírito da Maratona, através de vídeos e de pequenos pormenores espalhados pela expo. É impossível não entrar no espírito logo no momento do levantamento do dorsal!
Gostei bastante do kit de participante vir numa bolsa de ginásio que também poderia ser usada como mochila. A partir do meio dia tivemos direito a pasta party onde podíamos comer à descrição e com direito a música ao vivo e tudo.
A prova
Estava na hora de pôr à prova toda a preparação feita. Já começa a ser tradição passar uns bons minutos na fila para a WC antes da prova e desta vez não foi excepção. Felizmente depois disto não foi preciso esperar muito e lá fomos nós!! Na altura não estava a pensar seguir ninguém, nem mesmo o meu irmão. Queria fazer a minha prova e tentar realizar o objectivo que tinha estabelecido. Não queria ter muitos sobes e desces de ritmo e queria correr de forma solta mas com o ritmo sempre controlado. Era a única coisa em que estava a pensar e estava a resultar. Entretanto perdi o meu irmão logo no início da prova. Enquanto corríamos pelas ruas de Matosinhos já dava para perceber que o apoio nas ruas seria bem mais diferente do que em Lisboa. Logo no início da prova muitas pessoas já estavam a motivar-nos para que a prova corresse bem. O percurso em direcção ao Porto de Leixões já era mais solitário e já pedia alguma concentração. Apesar de algumas vezes ter que ultrapassar participantes, ter em atenção a mudança do piso liso para piso de pedra e ter que desviar-me de carros estava a ganhar confiança por conseguir manter a passada à volta da mesma média (5.20min/km).
Até ao km 12 estava a sentir-me estável e forte mas já começava a surgir um "buraquinho na barriga" que, por arrogância inicial, não liguei (já fiz provas de trail maiores com menos no estômago, pensei eu). Quando o buraco já se começava a tornar num poço lá decidi tomar um gel ao km 15 e uma pastilha a uns kms mais à frente. Mas o mal já estava feito. O gel e a pastilha não foram suficientes e lá decidi tomar mais um. Ao km 18 as dores de barriga começaram a transformar-se em ligeiros vómitos e os ligeiros vómitos começaram a transformar-se em movimentos intestinais e a barriga parecia querer algo mais do que gel e água.... A confiança rapidamente transformou-se em preocupação. Desistir não era sequer uma opção, mas ao ritmo a que eu ia o tempo que tinha estabelecido já não iria ser cumprido. Fui-me um bocado abaixo com as confusões alimentares, mas felizmente o pessoal do Porto não nos deixa ficar em baixo por muito tempo. O percurso entre a as Pontes da Arrábida e D. Luís I é o momento alto da prova. Não só porque correr com uma vista espetacular num dia de sol põe um sorriso a qualquer um, mas porque o pessoal que apoia puxa por cada atleta individualmente. Nunca ouvi tantas vezes o meu nome numa prova. As pessoas tinham a preocupação em ler os nossos dorsais para puxar por cada um de nós: "Vai Andreia! És um campeão Manuel!". Estava com uma vontade enorme em parar e tentar perceber o que precisava de fazer para que a questão da barriga ficasse resolvida, mas era simplesmente impossível não ir à boleia dos incentivos.
Fotografia de Nuno Santiago
O percurso da Ponte D. Luis I até à Afurada parecia que nunca mais acabava. Muito do piso era irregular com pedras da calçada. Felizmente comecei a ver gente conhecida (especialmente uma menina do Benfica em Forma e um amigo das Lebres do Sado) e comecei a tentar segui-los ou ficar ligeiramente à frente. Como começava a ver pessoas conhecidas pensei que o meu irmão tivesse por perto e tentei procurá-lo nas pessoas que ia passando. O buraco da barriga já atravessava todo o meu abdómen, já não tinha recuperação. Para além disto os movimentos intestinais eram perturbadores...mesmo... Quando atravessámos novamente a ponte D. Luis I já não os consegui acompanhar e decidi parar para beber água e tentar acalmar a barriga. Quando já estava a andar para o abastecimento lá vi o meu irmão de novo que já ia na direcção oposta com um grande ritmo! Coração mole como ele é decidiu estragar o tempo fantástico que ia fazer e ficar comigo, repetindo alguns kms que já tinha feito.
Depois da ponte D. Luis I há um túnel que no ano passado tinha a passar a música Chariots of Fire. Este ano lá estava a tocar novamente e com o vídeo dos corredores na praia West Sands. Ora uma vez que ultimamente corro bastante nessa praia, emocionei-me e quase que vinha uma lágrima ao olho. Foi bom para esquecer o sofrimento.
A partir do km 33 foi sempre a batalhar mas o apoio do público dava para esquecer um pouco as dores. O meu irmão seguiu em frente nos últimos kms. Apesar dos últimos metros serem feitos a subir (uma maldade!!), a festa estava montada, era impossível não tentar puxar mais um pouco pelas pernas. E lá fui eu novamente à boleia dos incentivos e passei o meu irmão, que estava a tirar fotografias, sem reparar.
Foto de Fernanda Silva
Final:
No fim de toda esta aventura, apesar de ter sofrido um bocadinho não fiquei triste ou desapontada. Tinha acabado mais uma maratona de estrada (que nada tem a ver com maratonas de trail). A minha terceira, com o tempo de 4h01m. Sinceramente, acho que toda a gente com algum treino consegue fazer uma maratona, mas quando se começa a pensar em "tempos" é necessário um grau de dedicação, trabalho e sacrifício que parece não estar alcançável a todos. A Maratona de estrada é uma prova brutal em termos físicos e psicológicos. A minha preparação não foi a suficiente, é algo que vou trabalhar, porque é mais uma maneira de me motivar. Mas toda a envolvência desta Maratona do Porto, quer pela organização, quer pelo público, quer pelas cidades em que corremos torna esta prova brutal! Se for possível, é uma prova que gostava imenso de repetir!
Notas:
1. Não percebo porquê é que os participantes de provas de corrida acham correcto correr em cima de passeios ou encurtar o caminho nas curvas..... Se a prova é feita na estrada com um piso mais irregular é apenas mais uma coisa que temos que suportar. Custa ter que correr num piso irregular? Custa, mas não vêm os atletas de elite a fazer isso pois não? Não é por causa disso que vão correr mais ou menos, deixem-se de tretas....
2. Até os atletas de elite puxavam por nós! Na altura em que estava a passar pela sport expo estavam a passar os atletas de elite na direcção oposta e vejo uma rapariga com um top às riscas e pensei logo que seria a Sara Moreira a dar força aos atletas amadores: "Força pessoal vocês conseguem". Afinal era a Salomé Rocha (não se esqueçam, se leram o meu relato, eu ia queimadinha da cabeça). Fiquei bastante emocionada com o facto dela, que tinha que estar mais preocupada com a sua prova, ainda ter motivação para nos dar um apoio.
3. O pessoal do porto é de um à vontade incrível. A dada altura passou por mim o pacemaker das 4h e havia uma rapariga que já devia estar a tentar fugir-lhe a algum tempo. Quando o vê a ultrapassá-la novamente solta um "Fodasse caralho não me digas que és tu outra vez caralho!" (não sei se foram estas palavras exactas mas havia muita asneirada no meio de tanta frustração ahahah).





