Olá malta! Pensavam que me tinha esquecido ou desistido da minha última parte do UTSM? Naaah, até escrever a experiência é uma ultra maratona! A verdade é que não sabia muito bem como acabar este meu relato. Queria poder dizer quanto tempo demorei a recuperar desta aventura, mas não vou conseguir porque ainda não tenho o joelho e o peito do pé (começo a achar que são os ligamentos) completamente recuperados. Queria dar uma de Gustavo Santos no final e dizer que a experiência das corridas em trilhos é transcendental, e que nos tornamos melhores pessoas e peace and love, mas não posso dizer que é para todos e que todos têm os mesmos resultados. Bem mas vamos então acabar o relato da prova!
Já a andar depois do posto de abastecimento em Reguengo, o meu irmão explicou-me o resto do percurso para que conseguisse aproveitar e tentar ganhar algum tempo. O percurso era bastante acessível, já só havia uma última subida em estrada e as descidas não eram íngremes, mas não conseguia correr. Tentei ao máximo ir sempre com a Filomena e com o senhor que ia com ela. Por vezes ia eu à frente, por vezes iam eles. A segunda noite já estava a começar e toca de ligar o frontal. Já só faltavam 7 km! As pernas mexiam-se porque tinha que acabar, mas aquele ânimo que me fazia continuar e aguentar a dor já se estava a esfumar. Estava em modo automático já sem grande emoção, tanto positiva como negativa. Só se pára na meta? Então quando lá chegar paro. Quando estava na última subida a Tuxa, a minha treinadora, envia-me uma sms de apoio, e foi como ver uma luzinha ao fim do túnel. Arrebitei um pouco, mas não conseguia aumentar o ritmo.
A Filomena e o outro senhor tinham ficado para trás e estava a andar no meio dos trilhos com habitações já à vista. No meio da escuridão começo a ver uns reflectores que pareciam desenhar um smilley. A minha primeira reacção não foi pensar de que poderiam representar um outro atleta (porque pensei que seriamos já os últimos). A minha primeira reacção foi pensar de que o cansaço já se estava a reflectir - será que já estou a alucinar?? A segunda reacção foi, epá, o meu irmão disse que íamos passar por uns bairros com aspecto de bairros sociais, se calhar é algum mitra aqui no meio do mato.... Durante alguns metros ficámos os dois à mesma distância, e eu ali a viajar na maionese a pensar o que seria aquilo, mas quando o consegui apanhar lá reparei que era outro atleta! Nem me passou pela cabeça ser outro atleta! Quando trocámos palavras ele disse que estava a tentar aproveitar a luz do meu frontal porque o dele estava com pouca intensidade. Estava no mesmo estado anímico que eu, mas para tentar animá-lo tentei descrever o tipo de percurso que faltava. No ano passado, na minha prova dos 50 km, tinha feito os últimos kms a "voar" (para mim), mas desta vez parecia que nunca mais conseguia chegar à maldita pista. Eventualmente a Filomena e o senhor apanharam-me e o rapaz que não tinha frontal ficou para trás. Mas já estávamos perto das luzes da cidade. No ano passado a descida até à pista era mais próxima do que a deste ano. E deve ter sido a última frustração (leve porque já não tinha grande capacidade de resposta) que tive. Já em direcção ao kartódromo, que estava ao lado da pista, o Francisco apanhou-me e acompanhou-me. Quando entrei na pista a minha segunda equipa de apoio (irmão, cunhada e sobrinha) já estava à minha espera, mas percorri a pista sozinha. A Filomena e o senhor também tinham pessoas à espera deles e que os acompanharam com cânticos até ao final. Eu ia mais atrás, mas gostei que tivesse ido sozinha. Aquela era a minha prova, ia ser eu a acabá-la. No ano passado tive a companhia de uma menina, a Bia, e fomos as duas a correr alegremente até à meta (se tiverem curiosidade o vídeo da minha chegada está mais abaixo, num outro relato). Este ano ia sozinha a andar.
No final a capacidade emocional que andava adormecida nos 7 km finais acordou, e não consegui conter. Comecei a chorar. Todo o esforço e sacrifício na preparação, treino e prova começaram a borbulhar na memória. O apoio da minha família e das pessoas que nos viam. O pessoal da organização da prova sempre com um sorriso e carinho. A minha treinadora a acompanhar-me. Tudo encheu-me o coração e algumas lágrimas podiam ser de sofrimento mas muitas mais eram de alegria. Só eu sei o que passei para chegar ali. Acabei os 101 km com 22h55m48s. Fiquei um pouco desiludida, mas porra tinha acabado a minha primeira prova de 100 km! Fui constipada e com dificuldades em respirar, lesionei-me e andei mais do que queria, mas cheguei ao fim! Tentei manter a calma o máximo que consegui e foquei-me no objectivo. E o objectivo era simplesmente acabar! Provar que conseguia conquistar esta montanha! Há uns anos atrás as minhas montanhas eram os 10 km, 15 km, depois a meia maratona, e a maratona. E agora já posso juntar mais uma montanha! E todas elas na altura pareciam-me impossíveis. A sensação de estabelecer um objectivo "impossível", trabalhar para ele e depois consegui-lo é do melhor que se pode ter! Se há coisa que as corridas me têm ensinado é persistência e resiliência. Mas sem querer, já ia entrar nas minhas cenas à Gustavo Santos e se calhar é melhor ficar por aqui ;)
Fazer 100 km não é pêra doce. Não se vai lá só com "treino" e ver o que dá na altura. A cabeça tem que lá estar primeiro do que o corpo e temos que querer. E querer muito. Mas também não se vai lá só com força de vontade. Exige muito treino e preparação a diversos níveis. Há pessoal que tem mais facilidade do que outros, mas independentemente da velocidade, todos temos que trabalhar. Às vezes vejo na net pessoal que critica os ultra maratonistas porque dizem que não exige talento. Cada vez mais acho que estão totalmente errados. É necessário estar sempre com a mente presente e em constante avaliação das condições do corpo e do ambiente. E isso é uma das coisas que me fascina nesta distância e neste tipo de provas (corridas em trilhos). Não é correr só por correr.
Tive imensa sorte com as pessoas que estiveram comigo nesta aventura e fica aqui o meu agradecimento! Não vou conseguir agradecer a todos individualmente, mas fica o meu muito obrigada a todos os que interagiram comigo por causa desta prova.
O Francisco, meu namorado, não é de todo apreciador destas coisas, mas até ele se envolveu e andou atrás de mim serra a dentro, serra a fora durante todo o dia e noite (Parece que gostou tanto que quer acompanhar-me nos próximos 100 km, no Estrelaçor.....)
A família Santiago/Nobre pela força na última parte da prova.
A minha treinadora Tuxa Negri, pelas tareias no treino e apoio. Treinos durinhos mas que fizeram toda a diferença! Só com algum sofrimento é que se melhora.
A todo o pessoal que me ia enviando mensagens de apoio. Ler as vossas mensagens era como beber um shot de cafeína.
A recordação que está na minha parede.
Infelizmente estou a demorar a recuperar mais do que queria, mas a próxima aventura já está marcada. Até já Estrelaçor 100 km....
