O peito do meu pé estava pedra e com algumas feridas. Já não tinha grande mobilidade no pé para conseguir correr e todos os passos eram bastante dolorosos. Por isso a descida até ao posto de abastecimento de São Mamede foi feito com muito custo. Estava num transe esquisito. Tinha dores, mas a cabeça não estava sequer a pensar em desistir. Estava numa missão em busca dos postos de abastecimento e depois de São Mamede só faltavam dois (muito melhor estratégia do que pensar que faltavam ~30 km).
Na descida para o PAC de São Mamede. Já toda torcida por causa das dores.
Chegada ao posto, a ~71 km com 14h20, vejo o Francisco e novamente o Eduardo, com um ar animado, a perguntar se estava bem. Na altura estava tão animada por vê-lo que momentaneamente as dores foram-se e até aligeirei a situação em que estava. "Ah tenho algumas dores no pé, mas isto faz-se". A Carla foi uma máquina em despachar-se a comer. Ainda eu estava a preparar-me para me sentar e ela já estava pronta para sair. Quando me dirijo para as cadeiras para me sentar e meter o fisiocrem no pé vejo a Gislaine (a rapariga que esteve comigo para os lados do Marvão) sentada, quase a dormir. Estava com um ar muito abatido e tinha acabado de desistir. Na altura só pensei "epá não podes estar pior do que eu, embora lá dar força à rapariga!". Lá consegui convencê-la a vir comigo e com a Carla, dizendo que nós também não estávamos a fazer grandes ritmos e que ela conseguia acompanhar-nos. Disse-lhe para esquecer o tempo, porque o mais importante nesta primeira tentativa dos 100 km seria acabar. Comemos qualquer coisa e a Carla ainda estava à nossa espera. Em São Julião tinha saído à pressa e não tinha comido bem nem enchido a mala de geis. Neste posto de abastecimento aconteceu o mesmo porque queria ir com elas. Saímos as três, e a Gislaine ainda estava com medo de que ficasse sozinha. Fez-me prometer que ficava com ela se ela andasse devagarinho e na altura até lancei "epah da maneira que eu estou vocês é que ainda vão ter que esperar por mim nas descidas". E não foi preciso muito para que isso acontecesse. Ainda estava eu a comer as gomas que tinha no bolso da mochila e já elas estavam a afastar-se.
De São Mamede ao próximo abastecimento, Alegrete, o caminho era feito novamente quase todo a descer. O fisiocrem já não tinha qualquer efeito e o pé não tinha salvação. Para além disso, o joelho esquerdo não tinha qualquer mobilidade e força e todas as descidas com pedra tinham de ser feitas com o rabinho no chão. Correr nesta altura era muito doloroso por isso o passo era bastante lento.
Esta nem é das fotos piores, mas dá para ter uma ideia do que tinha que fazer....
Perdi completamente as minhas colegas e passei grande parte do tempo até ao abastecimento a pensar o que podia fazer para reduzir as dores. Continuava a não ter pensamentos em desistir. Chegada a Alegrete, com 16h e qualquer coisa, continuava com uma margem confortável para não ser barrada. Vinha um pouco irritada por não conseguir sequer ter as minhas colegas à vista. Quando lá cheguei fiz uma coisa que imediatamente depois me arrependi. Quando a Carla pergunta por um colega dela que supostamente vinha atrás de mim, respondo-lhe "o teu colega? Então e eu? Vocês nem sequer me deram possibilidade de vos apanhar!". Ela responde "ah mas nós estávamos a ver-te." e eu imediatamente respondo "olha mas eu não conseguia ver-vos". Ora a corrida não é um desporto colectivo. Podemos ir com amigos e familiares, mas cada um sente a corrida à sua maneira. O que sentimos e retiramos da corrida só depende de nós. Se elas estavam a conseguir ganhar ânimo e correr, quem era eu para exigir que elas se adaptassem ao meu sofrimento? Cada um tem de fazer a sua corrida.
O Francisco coitadinho já não sabia o que fazer e ficou do lado de fora da tenda do abastecimento e ao ver a minha frustração pediu para que me dessem o fisiocrem. Aquilo já não tinha efeito nenhum e quase não aceitei o creme da Gislaine porque aquilo não servia de nada. Antes de comer pedi para que me pusessem um adesivo no peito do pé para tapar as feridas e criar uma camada entre o pé e o maldito ténis.
O meu plano de nutrição tinha ido por água abaixo há muito tempo e naquela altura já não sabia o que comer. Na altura estava outra atleta, a Filomena Cordeiro, que era da zona e que ao longo da prova ia vendo aqui e ali. Apesar de não querer ter mais companhia, aproveitei a sua saída para ir atrás dela para não ficar em "terra de ninguém" até ao último abastecimento. Comi melancia e tomate e vamos embora! A Filomena tinha feito a prova no ano passado e conhecia o percurso. As descrições que ela fazia do que vinha ali dava para antecipar as dificuldades. Estávamos as duas a fazer um passinho lento mas estávamos com esperança de chegar ao fim por volta das 21h. Só faltava mais um posto, Reguengo, mas o cansaço e as dores já não deixavam correr muito. Acho que a partir deste abastecimento devo ter feito o resto da prova quase sempre a andar. Mas felizmente tinha a Filomena e mais uns poucos atletas. De Alegrete a Reguengo a distância era grande, 14 km, e haviam descidas técnicas, inclinadas e com pedra, e subidas. Estava a ser difícil fazer aquele troço depois de tanto cansaço, mas estava numa missão. O meu irmão, que já tinha acabado a prova há muito tempo, telefona-me a perguntar onde andava. Na altura já tinha feito umas subidas e descidas, o que levou a que ele pensasse que já estaria quase em Reguengo. O meu relógio já ia na terceira fase de bateria (morrer e carregar), por isso os kms já não faziam qualquer sentido.
A organização tinha colocado um posto intermédio entre Alegrete e Reguengo, mesmo antes das duas grandes subidas daquele "entre-PAC". O meu irmão telefona-me novamente e digo-lhe que estava no posto intermédio. Alarmou-me logo para a grande subida que era já ali e mais o corta-fogo que era mais à frente. Quando ele me disse que iam esperar por mim no último posto, fiquei animada mas já sabia que ia demorar porque não iria conseguir correr.
Apesar de subidas íngremes naquela altura serem um pouco malvadas, não estava frustrada por isso. Estava era a perder o ânimo por não conseguir correr. Na altura só pensava "ok, aproveita as macacadas finais para "recuperar", quando der para correr logo se vê!". A última "grande" subida era feita num corta-fogo e tinha o nome de "Besta". Era realmente bastante longa e inclinada mas mesmo assim no meu passinho conseguia acompanhar os atletas que também lá estavam (obrigada pela tareia dos treinos de rampas Tuxa!). Depois da besta quem conseguisse correr tinha ali um troço a descer corrível que dava para aproveitar. E até mesmo o percurso final até ao abastecimento fazia-se bem. Não consegui aproveitar e fui ultrapassada por muitos atletas. Noutras distâncias e provas acho que tinha me afectado mais e apesar de no Marvão a mesma situação me ter dado um "boost" para ir à luta, já não conseguia fazer grande coisa. "Olha atletas a correr... como é que eles conseguem?"...
Cheguei a Reguengo, ~94 km com 20h30m, que correspondia ao limite superior do tempo que queria ter feito na totalidade. O meu irmão, a Cátia, a minha sobrinha e o Francisco, todos estavam lá e quando os ouvi a puxar por mim até tentei correr até eles. Bebi chá e comi algumas coisas disponíveis mas não fiquei muito tempo porque a Filomena estava prestes a sair. Estava a aproveitar-me do andamento que ela tinha para não ficar perdida.
A minha grande claque no final e a Filomena e o seu marido.







