sexta-feira, 25 de maio de 2018

UTSM 2018 - Os meus primeiros 100 km (parte 3)

O peito do meu pé estava pedra e com algumas feridas. Já não tinha grande mobilidade no pé para conseguir correr e todos os passos eram bastante dolorosos. Por isso a descida até ao posto de abastecimento de São Mamede foi feito com muito custo. Estava num transe esquisito. Tinha dores, mas a cabeça não estava sequer a pensar em desistir. Estava numa missão em busca dos postos de abastecimento e depois de São Mamede só faltavam dois (muito melhor estratégia do que pensar que faltavam ~30 km).

Na descida para o PAC de São Mamede. Já toda torcida por causa das dores.

Chegada ao posto, a ~71 km com 14h20, vejo o Francisco e novamente o Eduardo, com um ar animado, a perguntar se estava bem. Na altura estava tão animada por vê-lo que momentaneamente as dores foram-se e até aligeirei a situação em que estava. "Ah tenho algumas dores no pé, mas isto faz-se". A Carla foi uma máquina em despachar-se a comer. Ainda eu estava a preparar-me para me sentar e ela já estava pronta para sair. Quando me dirijo para as cadeiras para me sentar e meter o fisiocrem no pé vejo a Gislaine (a rapariga que esteve comigo para os lados do Marvão) sentada, quase a dormir. Estava com um ar muito abatido e tinha acabado de desistir. Na altura só pensei "epá não podes estar pior do que eu, embora lá dar força à rapariga!". Lá consegui convencê-la a vir comigo e com a Carla, dizendo que nós também não estávamos a fazer grandes ritmos e que ela conseguia acompanhar-nos. Disse-lhe para esquecer o tempo, porque o mais importante nesta primeira tentativa dos 100 km seria acabar. Comemos qualquer coisa e a Carla ainda estava à nossa espera. Em São Julião tinha saído à pressa e não tinha comido bem nem enchido a mala de geis. Neste posto de abastecimento aconteceu o mesmo porque queria ir com elas. Saímos as três, e a Gislaine ainda estava com medo de que ficasse sozinha. Fez-me prometer que ficava com ela se ela andasse devagarinho e na altura até lancei "epah da maneira que eu estou vocês é que ainda vão ter que esperar por mim nas descidas". E não foi preciso muito para que isso acontecesse. Ainda estava eu a comer as gomas que tinha no bolso da mochila e já elas estavam a afastar-se. 

De São Mamede ao próximo abastecimento, Alegrete, o caminho era feito novamente quase todo a descer. O fisiocrem já não tinha qualquer efeito e o pé não tinha salvação. Para além disso, o joelho esquerdo não tinha qualquer mobilidade e força e todas as descidas com pedra tinham de ser feitas com o rabinho no chão. Correr nesta altura era muito doloroso por isso o passo era bastante lento.

Esta nem é das fotos piores, mas dá para ter uma ideia do que tinha que fazer....


Perdi completamente as minhas colegas e passei grande parte do tempo até ao abastecimento a pensar o que podia fazer para reduzir as dores. Continuava a não ter pensamentos em desistir. Chegada a Alegrete, com 16h e qualquer coisa, continuava com uma margem confortável para não ser barrada. Vinha um pouco irritada por não conseguir sequer ter as minhas colegas à vista. Quando lá cheguei fiz uma coisa que imediatamente depois me arrependi. Quando a Carla pergunta por um colega dela que supostamente vinha atrás de mim, respondo-lhe "o teu colega? Então e eu? Vocês nem sequer me deram possibilidade de vos apanhar!". Ela responde "ah mas nós estávamos a ver-te." e eu imediatamente respondo "olha mas eu não conseguia ver-vos". Ora a corrida não é um desporto colectivo. Podemos ir com amigos e familiares, mas cada um sente a corrida à sua maneira. O que sentimos e retiramos da corrida só depende de nós. Se elas estavam a conseguir ganhar ânimo e correr, quem era eu para exigir que elas se adaptassem ao meu sofrimento? Cada um tem de fazer a sua corrida.

O Francisco coitadinho já não sabia o que fazer e ficou do lado de fora da tenda do abastecimento e ao ver a minha frustração pediu para que me dessem o fisiocrem. Aquilo já não tinha efeito nenhum e quase não aceitei o creme da Gislaine porque aquilo não servia de nada. Antes de comer pedi para que me pusessem um adesivo no peito do pé para tapar as feridas e criar uma camada entre o pé e o maldito ténis.

O meu plano de nutrição tinha ido por água abaixo há muito tempo e naquela altura já não sabia o que comer. Na altura estava outra atleta, a Filomena Cordeiro, que era da zona e que ao longo da prova ia vendo aqui e ali. Apesar de não querer ter mais companhia, aproveitei a sua saída para ir atrás dela para não ficar em "terra de ninguém" até ao último abastecimento. Comi melancia e tomate e vamos embora! A Filomena tinha feito a prova no ano passado e conhecia o percurso. As descrições que ela fazia do que vinha ali dava para antecipar as dificuldades. Estávamos as duas a fazer um passinho lento mas estávamos com esperança de chegar ao fim por volta das 21h. Só faltava mais um posto, Reguengo, mas o cansaço e as dores já não deixavam correr muito. Acho que a partir deste abastecimento devo ter feito o resto da prova quase sempre a andar. Mas felizmente tinha a Filomena e mais uns poucos atletas. De Alegrete a Reguengo a distância era grande, 14 km, e haviam descidas técnicas, inclinadas e com pedra, e subidas. Estava a ser difícil fazer aquele troço depois de tanto cansaço, mas estava numa missão. O meu irmão, que já tinha acabado a prova há muito tempo, telefona-me a perguntar onde andava. Na altura já tinha feito umas subidas e descidas, o que levou a que ele pensasse que já estaria quase em Reguengo. O meu relógio já ia na terceira fase de bateria (morrer e carregar), por isso os kms já não faziam qualquer sentido. 

A organização tinha colocado um posto intermédio entre Alegrete e Reguengo, mesmo antes das duas grandes subidas daquele "entre-PAC". O meu irmão telefona-me novamente e digo-lhe que estava no posto intermédio. Alarmou-me logo para a grande subida que era já ali e mais o corta-fogo que era mais à frente. Quando ele me disse que iam esperar por mim no último posto, fiquei animada mas já sabia que ia demorar porque não iria conseguir correr.


Apesar de subidas íngremes naquela altura serem um pouco malvadas, não estava frustrada por isso. Estava era a perder o ânimo por não conseguir correr. Na altura só pensava "ok, aproveita as macacadas finais para "recuperar", quando der para correr logo se vê!". A última "grande" subida era feita num corta-fogo e tinha o nome de "Besta". Era realmente bastante longa e inclinada mas mesmo assim no meu passinho conseguia acompanhar os atletas que também lá estavam (obrigada pela tareia dos treinos de rampas Tuxa!). Depois da besta quem conseguisse correr tinha ali um troço a descer corrível que dava para aproveitar. E até mesmo o percurso final até ao abastecimento fazia-se bem. Não consegui aproveitar e fui ultrapassada por muitos atletas. Noutras distâncias e provas acho que tinha me afectado mais e apesar de no Marvão a mesma situação me ter dado um "boost" para ir à luta, já não conseguia fazer grande coisa. "Olha atletas a correr... como é que eles conseguem?"... 

Cheguei a Reguengo, ~94 km com 20h30m, que correspondia ao limite superior do tempo que queria ter feito na totalidade. O meu irmão, a Cátia, a minha sobrinha e o Francisco, todos estavam lá e quando os ouvi a puxar por mim até tentei correr até eles. Bebi chá e comi algumas coisas disponíveis mas não fiquei muito tempo porque a Filomena estava prestes a sair. Estava a aproveitar-me do andamento que ela tinha para não ficar perdida. 

A minha grande claque no final e a Filomena e o seu marido.




quinta-feira, 24 de maio de 2018

UTSM 2018 - Os meus primeiros 100 km (parte 2)

O dia estava a ficar bonito, sem chuva à vista. Depois de Porto de Espada, meti os phones e começou a tocar AC/DC. Parece que tinha acordado naquele momento! Tinha uma subida mas que não era desanimadora porque ia dar a uma grande vista. Estava com tanto ânimo que não consegui evitar em tirar a minha única foto da prova. Do sítio onde estava, conseguia ver no topo da Serra de São Mamede as míticas antenas, que correspondiam aos ~68 km. Na altura só pensava "venham elas!". Mal sabia eu o que iria encontrar e de que maneira iria estar.


De Porto de Espada até ao próximo abastecimento, o caminho era feito maioritariamente a descer. Como estávamos bem no topo da Serra tínhamos paisagens fantásticas só que não faço muito bem descidas e já estava  perder o ânimo que tinha ganho. Tentava compensar o meu receio de cair com jeitos que ia dando ao pé. Ora os Hoka One One, que eram os ténis que tinha, são espectaculares mas só na sola. Podem levar montes de porrada e são óptimos para lama (agarram tudo). Só que a parte de cima é bastante fraca. Não só o tecido não dura nada (já tenho montes de buracos), como o desenho do pé não é o melhor para mim. A parte superior fica numa zona do meu peito do pé que passado algum tempo faz-me ferida. A língua dos ténis também é muito pequena e tinha que estar constantemente a puxá-la. Já estavam a começar a fazer moça aos meus pés mas nada que não conseguisse suportar.

Uma das descidas nesta parte do percurso era feita num corta-fogo que tinha uma inclinação brutal. Uns dias antes, a organização tinha feito um vídeo no local mas não me parecia tão mau. A minha salvação naquela descida foi a Lina Mateus, que conheci ali. Ao ver a minha pandice a descer emprestou-me um dos seus bastões. Não tinha levado os meus porque no único treino que tentei fazer com eles as partes mais pequenas não ficavam presas (é o que dá comprar os mais baratos da decathlon! quem me manda ser pobre....). E como não queria estar a pensar em perder pedaços de bastões decidi não levá-los. Grande Lina, ufas! Se antes do UTSM pensava que os bastões eram um empecilho, agora acho que não faz mal nenhum levá-los.

Ainda com o bastão da Lina numa descida mais agradável.

Cheguei a São Julião ~57 km, que também tinha um tempo limite oficial e de 14h, com 10h10m. Estava com uma margem confortável mas estava mas abatida por causa das descidas. O pé já me estava a chatear, a perna esquerda começava a ter algumas dores e o meu plano de nutrição começava a ir por água abaixo. Entre Porto de Espada e São Julião pouco comi, porque a comida estava toda na parte detrás da mochila, e começava a ignorar o despertador para comer. Quando cheguei a São Julião nem sabia o que comer. Neste posto tínhamos a possibilidade de ter uma mochila ou saco com coisas que precisássemos que entregámos antes da prova. Tinha na mochila uma tshirt, boné, ténis e meias novas, protector solar e gel para as assaduras e montes de geis. Depois de ter ido à WC (novamente, foi a primeira coisa que fiz!), sentei-me e senti-me um bocado desamparada, sem saber o que fazer. Tinha ao meu lado um senhor que também estava com um ar abatido e que parecia mais que ia desistir. Do meu lado do posto, aquilo parecia um cenário de guerra. O Francisco estava comigo e conforme ia falando com ele ia me apercebendo que estava a fazer a minha voz fininha de coitadinha. "Opah, estou com tanto medo de ficar aqui nos montes até à noite. Isto agora é a parte difícil e já me começa a doer a perna.... tenho o pé em farrapos" - eu a dizer isto com voz fininha e o senhor de cabeça baixa a ouvir.... Conforme ia falando fez-se ali um clique, levantei-me e fui comer a sopa que estava disponível. Não podia entrar no "loop da coitadinha"! Não tinha vontade nenhuma em pensar em desistir. Tinha que ir ver a pior parte do UTSM em pessoa! Meto creme no peito para o soutien não fazer ferida, troco de tshirt, ponho creme frio no peito do pé e na perna e toca a sair! Tinha que sair dali por causa da minha cabeça, mas a verdade é que saí depressa demais. Passei muito tempo a "chorar" quando o que devia ter feito era ter mudado de meias/ténis e ter posto vaselina nos pés, abastecido a mala com geis e ter enfiado no bucho algo mais do que apenas a sopa. Vá lá ainda tive discernimento para encher os flasks de água. 

Ao sair do posto vejo três outros atletas dos Évora Night Runners e tento-me colar a eles. Do posto de abastecimento até a uma das subidas difíceis, o trajecto era feito perto de uma ribeira que tínhamos que estar constantemente a atravessar. Ora vais para uma margem, molhas o pé, corres uns metros, voltas para a outra margem, molhas o pé outra vez, mudas de margem outra vez.... nas poucas partes que dava para correr não reparei num tronco que estava à frente e dei uma cabeçada valente que estava a precisar. Acorda rapariga! A parte de atravessar a ribeira estava a ficar irritante... mas ainda deu para fazer boa cara para a fotografia.

Fotografia de Ivo Baptista


Dos 3 corredores do Évora Night Runners dois deles continuaram a bom passo e comigo ficou a Carla Cristina. Continuámos as duas e apanhámos pelo caminho o Miguel Baptista e a Natasha Planas, que também conhecia dos treinos do somais1km. O Miguel já tinha andado por ali no ano passado e sabia o que nos esperava. Quando uma das subidas macacas ia começar avisou-nos logo. Para mim foi a pior subida de toda a prova. Não só tinha uma inclinação descomunal, como tinha terra seca e o pé por vezes escorregava, era toda a descoberto sem grande vegetação e tinha muitos poucos pontos de apoio. Qualquer deslize ou queda ali seria muito perigoso. Não havia margem para viajar na maionese ou adormecer pelo caminho (a subida era um pouco longa). Nada de phones e toca a subir. A minha sorte era que havia um tubo com água que estava no meio da subida que dava para agarrar e dar algum impulso. Este percurso na Serra de São Mamede tinha maior altimetria e como já íamos com muitos kms e horas no corpo notava-se que estávamos todos a penar. A Carla era a que verbalizava a frustração com maior frequência e estava decidida que estes 100 km iriam ser os primeiros e os últimos. 

Uma das coisas que mais gosto nas provas longas é de socializar. Normalmente no dia-a-dia não sou muito sociável, mas nas corridas porque estou mais descontraída, solto-me mais. Parece que eu e a Carla tínhamos formado ali uma equipa e estávamos as duas decididas a acabar juntas. Ela fazia as descidas mais rapidamente que eu e eu fazia as subidas. Como estávamos sempre mais ou menos juntas e estávamos as duas a sofrer para chegar às míticas antenas, pensámos em continuar as duas. Apesar de estar a ficar com bolhas nos pés e ter a perna esquerda desfeita, ainda tinha alguma força para continuar a correr num passinho lento. A Carla estava mais em baixo, frustrada por não chegarmos às malditas antenas. Eu adaptei o meu passo ao dela. Quando lá chegámos estava um atleta deitado no chão, prestes a levar soro dos bombeiros. A Carla quis parar para tratar das mãos inchadas. Na altura estava a gostar de ter companhia e poder falar em vez de estar sempre a ouvir as mesmas músicas. Mas fiz mal, não devia ter parado. Devia ter seguido e feito a minha prova. Até porque mais à frente ela fez-me o mesmo e fez muito bem! Enquanto a Carla tratava das mãos, uma voluntária dizia-nos: o posto de abastecimento é daqui a 1 km é já ali atrás daquele monte! Eu pelas minhas contas sabia que faltavam ainda 4 km. Mas aquelas palavras deram-nos a força que precisávamos para ir a correr serra abaixo.

A  Carla e eu depois de termos chegado às antenas. Fotografia de Ivo Baptista.


terça-feira, 22 de maio de 2018

UTSM 2018 - Os meus primeiros 100 km (parte 1)

Nem sei bem como começar este meu relato porque há tanta coisa por onde podia começar. Fazer uma prova de 100 km exige muita preparação. Eu tenho sempre imenso respeito pelas provas e/ou distâncias que me comprometo em fazer. E sempre pensei que me preparava bem para as provas, até ter feito o UTSM. Nunca pensei em tanta coisa para conseguir realizar uma prova. Para além de tentar seguir o plano de treinos da minha super treinadora Tuxa Negri, estudei o percurso, preparei a minha comida, tive atenção ao equipamento que ia usar. Desta vez até iria ter a minha "equipa de apoio", constituída pelo meu namorado. O coitadinho deve ter percebido que desta vez a coisa era séria e aceitou acompanhar-me em quase todos os postos de abastecimento. Só para ter uma cara familiar para me dar alguma força. Na semana anterior à prova tentei mentalizar-me de que ia sofrer. Parece parvo, mas acho que foi uma preparação necessária. Às vezes desisto de provas porque acho que não estou em condições e tenho que ser realista mas outras vezes acho que é mais a cabeça que se mete em embrulhadas e não consigo sair do "loop da coitadinha". 

Uns dias antes da prova começava a ter razões para me fazer de coitadinha. Os meus joelhos nunca ficaram a 100% depois da Gardunha (principalmente o esquerdo) e estava a ficar constipada, com dores de garganta e dificuldades em respirar. Apesar das condições serem as mais indicadas para começar o "loop da coitadinha" antes mesmo da prova começar, não estava para essas coisas. A cabeça estava feita. Ia sofrer e se isso significasse começar a sofrer antes da prova, que assim fosse. Estava em paz com a minha decisão e não houve uma única incerteza de que não ia acabar a prova.

Sexta-feira chega e lá vamos nós. As previsões meteorológicas para Portalegre não eram as melhores. Se no ano passado estava um sol e calor brutal, este ano iríamos ser brindados com alguma chuva forte e possíveis trovoadas no sábado. Na viagem para Portalegre apanhámos com muita chuva, mas novamente não era algo que me estava a preocupar. Era só mais uma coisa diferente que ia acontecer (siga!). Perto das 23h começámos a ir para o estádio e comecei a sentir um orgulho imenso em finalmente estar do outro lado (no ano passado fiz os 50 km). Finalmente tinha chegado a minha altura de ir à luta! Quando deram o sinal da partida e tivemos que atravessar a imensidão de gente a apoiar-nos tive que conter as lágrimas. Apesar de saber que o que vinha ali não ia ser pêra doce estava genuinamente feliz por estar ali. Agora é que ia pôr à prova toda a minha preparação e ver com quantos paus se fazia uma canoa.



Sendo a minha primeira vez nestas distâncias não sabia muito bem como abordar o início da prova. Os primeiros kms eram a subir mas relativamente fáceis por serem mais urbanos. Como sentia-me bem decidi deixar-me ir, não pensando se seria melhor conservar as pernas e ir a andar. Felizmente encontrei um amigo do Benfica em Forma, o Paulo Gomes, que me deu conselhos valiosos. Estava a ir muito depressa e a ficar com a respiração descontrolada. Com isso em mente pensei em abrandar mas sempre a tentar ir num ritmo a correr. Tentei ficar o mínimo possível no primeiro abastecimento, no Centro Vicentino da Serra, porque ia ter com o Francisco (o meu namorado), que estava à espera no próximo abastecimento. Felizmente os trilhos não eram muito técnicos e os treinos nocturnos com o pessoal do somais1km tinham-me ajudado bastante a ficar mais confortável em correr à noite. Apesar de não haver grande dificuldade, apenas umas pedras aqui e ali, a água começava a aparecer. Não demorou muito até ter os pés molhados. Mas era mais uma coisa que tinha que me habituar porque a organização dizia que iríamos molhar os pés umas quantas vezes.

No guia do acompanhante a organização tinha estabelecido tempos "limite" aconselhados, talvez mais para o público, para cada posto de abastecimento. Cheguei ao segundo abastecimento, Carreiras, mesmo no final do tempo limite aconselhado para este abastecimento. Estava a começar a ficar preocupada em não conseguir chegar ao Marvão antes das 9h e por isso também tentei ficar pouco tempo a comer. Felizmente tinha o despertador a tocar a cada 1h30 para me ir lembrando de comer um bolo de arroz ou um gel. Durante a primeira parte da prova consegui seguir à risca o meu plano de nutrição/hidratação. Depois da parte de estrada em Carreiras entrámos na calçada romana e aí dei o meu primeiro e último bate cu. Por sorte tinha o telemóvel no bolso detrás que me amorteceu a queda (e felizmente não se partiu). A secção em que temos que percorrer uma grande extensão da calçada romana deu-me imenso gozo. Para muitos que participam nestas provas é um tipo de terreno aborrecido porque não tem grande "dureza". Para mim é dos que mais gosto, porque permite-me fazer o objectivo da prova (que é correr, não fazer escalada) e apreciar a paisagem. A parte do apreciar a paisagem não estava muito acessível mas ver as luzinhas do pessoal à frente ou atrás e as luzes das urbanizações ao longe é bem giro!

Quando cheguei ao terceiro abastecimento, ~25 km em Castelo de Vide, já ia mais calma porque estava com 3h50m e o tempo limite aconselhado era de 5h. Decidi ficar um pouco por ali e comer a minha tortilha de húmus, tomate e abacate. O Eduardo, do mundo da corrida, estava por lá e perguntei-lhe pelo meu irmão. Ah o teu irmão já passou há uma hora ou mais! Ok, apanhá-lo está mesmo fora de questão, sem problema. Apesar de não estar a fazer tempos de elite, estava a sentir-me bem confiante. Estava bem, não tinha nenhuma dor ou cansaço e o próximo abastecimento era já o Marvão, o primeiro com o verdadeiro tempo limite, de 9h.

Ao sair de Castelo de Vide fui encontrando caras conhecidas e durante um pouco fiquei com o Martinho Dias, que conhecia dos treinos do somais1km. Estávamos os dois a fazer 100 km pela primeira vez e cada um ia no seu passo. Eventualmente ele ficou para trás e fui apanhando outros corredores. Um pouco antes da subida do Marvão apanhei uma rapariga, a Gislaine Costa, e fiquei com ela quase até ao posto de abastecimento. Como vejo muito mal (apesar de ter óculos...), durante a noite não queria ir com os phones para ter os sentidos todos em alerta. Por causa disso tentava quebrar a monotonia ao trocar algumas palavras com as pessoas que ia encontrando. Falámos um pouco sobre outras provas e ela disse-me que tinha o namorado mais à frente e que ia bastante bem. Novamente, era outra estreante na distância dos 100 km e não sabia muito bem o que vinha aí. Tentei explicar-lhe de que esta prova tem duas partes completamente distintas. E que a partir dos segundos 50 km, a prova era outra e não tinha nada haver com o que estávamos a fazer. A noite rapidamente passou e quando começámos a subir para o Marvão já não precisámos dos frontais. A Gislaine conseguiu apanhar o namorado na subida do Marvão e seguiram os dois no seu passo e eu segui no meu. A paisagem até ao Marvão era lindíssima. Primeiro logo na base da subida, os campos estavam submersos num mar de nevoeiro. Depois, quando o sol começou a nascer e quando já estávamos a subir a calçada romana em direcção ao castelo, as diferentes tonalidades dos montes ao longe pareciam ter sido pintadas. Mesmo bonito! E nem assim sucumbi à minha grande tentação nas provas que é parar e tirar fotos. Desta vez estava lá para uma única missão. Fazer a prova para mim.

As fotos não são minhas, são do Francisco.


Cheguei ao Marvão, ~40 km, com 6h30m e depois de ter comido e bebido tanta coisa durante a noite, a primeira coisa que queria fazer era ir à WC. Nunca pensei tanto numa WC durante uma prova. Também nunca tinha-me preocupado tanto em comer e beber regularmente durante uma prova. O Francisco depois de ter dormido uma boa soneca depois de Carreiras, estava no Marvão à minha espera mas pensava que eu ia demorar mais tempo. Por isso não conseguiu tirar a bela da foto da minha subida. A primeira parte desta edição dos 100 km era o percurso dos 50 km do ano passado mas no sentido inverso. Por isso todo aquele trajecto não era novo para mim e por ter gostado tanto da prova ainda tinha algumas partes bastante frescas na memória. Enquanto comia a sopa no abastecimento do Marvão já estava a "rabujar" porque a parte difícil do Marvão era já a seguir e este ano seria feito a descer (adoro descidas......). Decidi que era uma boa altura colocar os phones e descer o Marvão com as minhas amigas Taylor Swift, Britney Spears e outras pérolas para me distrair. Não estava a resultar e estava a começar a ser ultrapassada por outros atletas. Não que isso me faça confusão, muito pelo contrário. Não tinha qualquer ambição em ficar à frente de X ou Y. Só que se começamos a ser ultrapassados por muita gente significa que vamos mal e que é melhor acordar. Decidi parar a banda sonora e tentar focar-me. 



Depois da descida do Marvão há uma mistura de trilhos corríveis com outros perto de zonas de água, alguns estilo abutres, com pedra e lama. Não me recordava daquela parte e outros corredores que estavam comigo também acharam que aquela macacada era nova. Apesar disso sabia que eventualmente vinha um estradão. O mais chato é que seria a subir. Mas não me importava, até porque parece que é uma das coisas que tenho algum jeito (feito ao meu passinho). Depois das subidas consegui correr um pouco até ao abastecimento dos 50 km, Porto de Espada. Metade da prova estava feita em 8h20m!