O dia estava a ficar bonito, sem chuva à vista. Depois de Porto de Espada, meti os phones e começou a tocar AC/DC. Parece que tinha acordado naquele momento! Tinha uma subida mas que não era desanimadora porque ia dar a uma grande vista. Estava com tanto ânimo que não consegui evitar em tirar a minha única foto da prova. Do sítio onde estava, conseguia ver no topo da Serra de São Mamede as míticas antenas, que correspondiam aos ~68 km. Na altura só pensava "venham elas!". Mal sabia eu o que iria encontrar e de que maneira iria estar.
De Porto de Espada até ao próximo abastecimento, o caminho era feito maioritariamente a descer. Como estávamos bem no topo da Serra tínhamos paisagens fantásticas só que não faço muito bem descidas e já estava perder o ânimo que tinha ganho. Tentava compensar o meu receio de cair com jeitos que ia dando ao pé. Ora os Hoka One One, que eram os ténis que tinha, são espectaculares mas só na sola. Podem levar montes de porrada e são óptimos para lama (agarram tudo). Só que a parte de cima é bastante fraca. Não só o tecido não dura nada (já tenho montes de buracos), como o desenho do pé não é o melhor para mim. A parte superior fica numa zona do meu peito do pé que passado algum tempo faz-me ferida. A língua dos ténis também é muito pequena e tinha que estar constantemente a puxá-la. Já estavam a começar a fazer moça aos meus pés mas nada que não conseguisse suportar.
Uma das descidas nesta parte do percurso era feita num corta-fogo que tinha uma inclinação brutal. Uns dias antes, a organização tinha feito um vídeo no local mas não me parecia tão mau. A minha salvação naquela descida foi a Lina Mateus, que conheci ali. Ao ver a minha pandice a descer emprestou-me um dos seus bastões. Não tinha levado os meus porque no único treino que tentei fazer com eles as partes mais pequenas não ficavam presas (é o que dá comprar os mais baratos da decathlon! quem me manda ser pobre....). E como não queria estar a pensar em perder pedaços de bastões decidi não levá-los. Grande Lina, ufas! Se antes do UTSM pensava que os bastões eram um empecilho, agora acho que não faz mal nenhum levá-los.
Ainda com o bastão da Lina numa descida mais agradável.
Cheguei a São Julião ~57 km, que também tinha um tempo limite oficial e de 14h, com 10h10m. Estava com uma margem confortável mas estava mas abatida por causa das descidas. O pé já me estava a chatear, a perna esquerda começava a ter algumas dores e o meu plano de nutrição começava a ir por água abaixo. Entre Porto de Espada e São Julião pouco comi, porque a comida estava toda na parte detrás da mochila, e começava a ignorar o despertador para comer. Quando cheguei a São Julião nem sabia o que comer. Neste posto tínhamos a possibilidade de ter uma mochila ou saco com coisas que precisássemos que entregámos antes da prova. Tinha na mochila uma tshirt, boné, ténis e meias novas, protector solar e gel para as assaduras e montes de geis. Depois de ter ido à WC (novamente, foi a primeira coisa que fiz!), sentei-me e senti-me um bocado desamparada, sem saber o que fazer. Tinha ao meu lado um senhor que também estava com um ar abatido e que parecia mais que ia desistir. Do meu lado do posto, aquilo parecia um cenário de guerra. O Francisco estava comigo e conforme ia falando com ele ia me apercebendo que estava a fazer a minha voz fininha de coitadinha. "Opah, estou com tanto medo de ficar aqui nos montes até à noite. Isto agora é a parte difícil e já me começa a doer a perna.... tenho o pé em farrapos" - eu a dizer isto com voz fininha e o senhor de cabeça baixa a ouvir.... Conforme ia falando fez-se ali um clique, levantei-me e fui comer a sopa que estava disponível. Não podia entrar no "loop da coitadinha"! Não tinha vontade nenhuma em pensar em desistir. Tinha que ir ver a pior parte do UTSM em pessoa! Meto creme no peito para o soutien não fazer ferida, troco de tshirt, ponho creme frio no peito do pé e na perna e toca a sair! Tinha que sair dali por causa da minha cabeça, mas a verdade é que saí depressa demais. Passei muito tempo a "chorar" quando o que devia ter feito era ter mudado de meias/ténis e ter posto vaselina nos pés, abastecido a mala com geis e ter enfiado no bucho algo mais do que apenas a sopa. Vá lá ainda tive discernimento para encher os flasks de água.
Ao sair do posto vejo três outros atletas dos Évora Night Runners e tento-me colar a eles. Do posto de abastecimento até a uma das subidas difíceis, o trajecto era feito perto de uma ribeira que tínhamos que estar constantemente a atravessar. Ora vais para uma margem, molhas o pé, corres uns metros, voltas para a outra margem, molhas o pé outra vez, mudas de margem outra vez.... nas poucas partes que dava para correr não reparei num tronco que estava à frente e dei uma cabeçada valente que estava a precisar. Acorda rapariga! A parte de atravessar a ribeira estava a ficar irritante... mas ainda deu para fazer boa cara para a fotografia.
Fotografia de Ivo Baptista
Dos 3 corredores do Évora Night Runners dois deles continuaram a bom passo e comigo ficou a Carla Cristina. Continuámos as duas e apanhámos pelo caminho o Miguel Baptista e a Natasha Planas, que também conhecia dos treinos do somais1km. O Miguel já tinha andado por ali no ano passado e sabia o que nos esperava. Quando uma das subidas macacas ia começar avisou-nos logo. Para mim foi a pior subida de toda a prova. Não só tinha uma inclinação descomunal, como tinha terra seca e o pé por vezes escorregava, era toda a descoberto sem grande vegetação e tinha muitos poucos pontos de apoio. Qualquer deslize ou queda ali seria muito perigoso. Não havia margem para viajar na maionese ou adormecer pelo caminho (a subida era um pouco longa). Nada de phones e toca a subir. A minha sorte era que havia um tubo com água que estava no meio da subida que dava para agarrar e dar algum impulso. Este percurso na Serra de São Mamede tinha maior altimetria e como já íamos com muitos kms e horas no corpo notava-se que estávamos todos a penar. A Carla era a que verbalizava a frustração com maior frequência e estava decidida que estes 100 km iriam ser os primeiros e os últimos.
Uma das coisas que mais gosto nas provas longas é de socializar. Normalmente no dia-a-dia não sou muito sociável, mas nas corridas porque estou mais descontraída, solto-me mais. Parece que eu e a Carla tínhamos formado ali uma equipa e estávamos as duas decididas a acabar juntas. Ela fazia as descidas mais rapidamente que eu e eu fazia as subidas. Como estávamos sempre mais ou menos juntas e estávamos as duas a sofrer para chegar às míticas antenas, pensámos em continuar as duas. Apesar de estar a ficar com bolhas nos pés e ter a perna esquerda desfeita, ainda tinha alguma força para continuar a correr num passinho lento. A Carla estava mais em baixo, frustrada por não chegarmos às malditas antenas. Eu adaptei o meu passo ao dela. Quando lá chegámos estava um atleta deitado no chão, prestes a levar soro dos bombeiros. A Carla quis parar para tratar das mãos inchadas. Na altura estava a gostar de ter companhia e poder falar em vez de estar sempre a ouvir as mesmas músicas. Mas fiz mal, não devia ter parado. Devia ter seguido e feito a minha prova. Até porque mais à frente ela fez-me o mesmo e fez muito bem! Enquanto a Carla tratava das mãos, uma voluntária dizia-nos: o posto de abastecimento é daqui a 1 km é já ali atrás daquele monte! Eu pelas minhas contas sabia que faltavam ainda 4 km. Mas aquelas palavras deram-nos a força que precisávamos para ir a correr serra abaixo.
A Carla e eu depois de termos chegado às antenas. Fotografia de Ivo Baptista.



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