terça-feira, 7 de novembro de 2017

Maratona do Porto - A brutalidade da Maratona

Não estava com intenções de fazer um relato sobre esta corrida, mas passei por tanta coisa que acho que merece.
 
A preparação
Já não fazia uma prova a sério desde o Trail Nocturno de Óbidos e a última prova em estrada foi a XI Memorial Francisco Lázaro, em Julho deste ano. Por questões profissionais tive que ir para o estrangeiro, o que me possibilitou ter mais disciplina nos meus treinos e levar a Maratona do Porto mais "a sério". Na altura pensei: "ok, para fazer um tempo entre as 3h50m e as 3h55m preciso de fazer X treinos, sem distracções e com a mente focada isto vai ser "peanurs"! A Maratona de Badajoz em Março correu tão bem e fiz um tempo que não estava a espera (3h59m), vai ser impossível que esta corra mal".

Não que eu seja uma maluquinha dos tempos, até nem gosto de pensar nisso. Só que estou numa altura em que correr por correr não é suficiente; são necessários estímulos para que o processo de treino seja mais tolerável e a prova menos dolorosa. Não basta aparecer na prova (seja lá qual ela for) e ver o que dá, a corrida implica sempre algum trabalho e dedicação. Mas no final de tudo, o tempo não interessa para nada (como vão ver mais daqui a pouco).

Os treinos correram mais ou menos como o previsto, com sessões de ginásio, algumas corridas semanais e uma corrida longa ao fim-de-semana. Por isso fiquei bastante motivada que iria conseguir atingir o meu objectivo. O problema foi que só pensei em comparar os meus treinos para a Maratona do Porto com os de Badajoz, já no último mês de treino. Apesar das actividades terem sido mais frequentes intensas, a verdade é que tinha corrido menos. E por muitas aulas de HIITS e SPRINTS que se faça, sem correr não se vai a lado nenhum. Lembro-me sempre de uma frase que vi no facebook que dizia:
Como não tinha introduzido grande "sofrimento" nos treinos (fiz algumas séries e algumas parkruns a batalhar na passada), comecei a questionar-me se o objectivo poderia ser concretizado...


O dia anterior à prova
Mais uma vez fui à boleia da família Santiago na madrugada de Sábado. Não iam propriamente motivados porque porque meu irmão tinha feito a Maratona de Lisboa há duas semanas, e a Maratona dos Marines na semana anterior. Esta seria "mais uma" para ele. A chuvada de sexta-feira e o que estava a chover quando saímos também não dava grande esperança para que o fim-de-semana fosse solarengo. Mas até isso tentei monitorizar, e duas semanas antes da prova (maluquice!! sim eu sei...) ia averiguando a meteorologia para o fim-de-semana da prova, por isso já sabia que não haveria motivos de preocupação em relação a isso.

A meio da manhã fomos à Expo Maratona do Porto e sinceramente pensei que fosse muito semelhante às entregas de dorsais de Lisboa, até porque os patrocinadores são os mesmos. Mal sabia eu do que me estava à espera.... Percebe-se logo que a dimensão da expo é bem maior do que a de Lisboa (apesar da zona reservada à venda de material continuar a ser apertada). Para além disso, há uma preocupação em envolver os participantes e famílias no espírito da Maratona, através de vídeos e de pequenos pormenores espalhados pela expo. É impossível não entrar no espírito logo no momento do levantamento do dorsal!



Gostei bastante do kit de participante vir numa bolsa de ginásio que também poderia ser usada como mochila. A partir do meio dia tivemos direito a pasta party onde podíamos comer à descrição e com direito a música ao vivo e tudo.



A prova
Estava na hora de pôr à prova toda a preparação feita. Já começa a ser tradição passar uns bons minutos na fila para a WC antes da prova e desta vez não foi excepção. Felizmente depois disto não foi preciso esperar muito e lá fomos nós!! Na altura não estava a pensar seguir ninguém, nem mesmo o meu irmão. Queria fazer a minha prova e tentar realizar o objectivo que tinha estabelecido. Não queria ter muitos sobes e desces de ritmo e queria correr de forma solta mas com o ritmo sempre controlado. Era a única coisa em que estava a pensar e estava a resultar. Entretanto perdi o meu irmão logo no início da prova. Enquanto corríamos pelas ruas de Matosinhos já dava para perceber que o apoio nas ruas seria bem mais diferente do que em Lisboa. Logo no início da prova muitas pessoas já estavam a motivar-nos para que a prova corresse bem. O percurso em direcção ao Porto de Leixões já era mais solitário e já pedia alguma concentração. Apesar de algumas vezes ter que ultrapassar participantes, ter em atenção a mudança do piso liso para piso de pedra e ter que desviar-me de carros estava a ganhar confiança por conseguir manter a passada à volta da mesma média (5.20min/km).

Até ao km 12 estava a sentir-me estável e forte mas já começava a surgir um "buraquinho na barriga" que, por arrogância inicial, não liguei (já fiz provas de trail maiores com menos no estômago, pensei eu). Quando o buraco já se começava a tornar num poço lá decidi tomar um gel ao km 15 e uma pastilha a uns kms mais à frente. Mas o mal já estava feito. O gel e a pastilha não foram suficientes e lá decidi tomar mais um. Ao km 18 as dores de barriga começaram a transformar-se em ligeiros vómitos e os ligeiros vómitos começaram a transformar-se em movimentos intestinais e a barriga parecia querer algo mais do que gel e água.... A confiança rapidamente transformou-se em preocupação. Desistir não era sequer uma opção, mas ao ritmo a que eu ia o tempo que tinha estabelecido já não iria ser cumprido. Fui-me um bocado abaixo com as confusões alimentares, mas felizmente o pessoal do Porto não nos deixa ficar em baixo por muito tempo. O percurso entre a as Pontes da Arrábida e D. Luís I é o momento alto da prova. Não só porque correr com uma vista espetacular num dia de sol põe um sorriso a qualquer um, mas porque o pessoal que apoia puxa por cada atleta individualmente. Nunca ouvi tantas vezes o meu nome numa prova. As pessoas tinham a preocupação em ler os nossos dorsais para puxar por cada um de nós: "Vai Andreia! És um campeão Manuel!". Estava com uma vontade enorme em parar e tentar perceber o que precisava de fazer para que a questão da barriga ficasse resolvida, mas era simplesmente impossível não ir à boleia dos incentivos.

 Fotografia de Nuno Santiago

O percurso da Ponte D. Luis I até à Afurada parecia que nunca mais acabava. Muito do piso era irregular com pedras da calçada. Felizmente comecei a ver gente conhecida (especialmente uma menina do Benfica em Forma e um amigo das Lebres do Sado) e comecei a tentar segui-los ou ficar ligeiramente à frente. Como começava a ver pessoas conhecidas pensei que o meu irmão tivesse por perto e tentei procurá-lo nas pessoas que ia passando. O buraco da barriga já atravessava todo o meu abdómen, já não tinha recuperação. Para além disto os movimentos intestinais eram perturbadores...mesmo... Quando atravessámos novamente a ponte D. Luis I já não os consegui acompanhar e decidi parar para beber água e tentar acalmar a barriga. Quando já estava a andar para o abastecimento lá vi o meu irmão de novo que já ia na direcção oposta com um grande ritmo! Coração mole como ele é decidiu estragar o tempo fantástico que ia fazer e ficar comigo, repetindo alguns kms que já tinha feito.

Depois da ponte D. Luis I há um túnel que no ano passado tinha a passar a música Chariots of Fire. Este ano lá estava a tocar novamente e com o vídeo dos corredores na praia West Sands. Ora uma vez que ultimamente corro bastante nessa praia, emocionei-me e quase que vinha uma lágrima ao olho. Foi bom para esquecer o sofrimento.

 A partir do km 33 foi sempre a batalhar mas o apoio do público dava para esquecer um pouco as dores. O meu irmão seguiu em frente nos últimos kms. Apesar dos últimos metros serem feitos a subir (uma maldade!!), a festa estava montada, era impossível não tentar puxar mais um pouco pelas pernas. E lá fui eu novamente à boleia dos incentivos e passei o meu irmão, que estava a tirar fotografias, sem reparar.

 Foto de Fernanda Silva

Final:
No fim de toda esta aventura, apesar de ter sofrido um bocadinho não fiquei triste ou desapontada. Tinha acabado mais uma maratona de estrada (que nada tem a ver com maratonas de trail). A minha terceira, com o tempo de 4h01m. Sinceramente, acho que toda a gente com algum treino consegue fazer uma maratona, mas quando se começa a pensar em "tempos" é necessário um grau de dedicação, trabalho e sacrifício que parece não estar alcançável a todos. A Maratona de estrada é uma prova brutal em termos físicos e psicológicos. A minha preparação não foi a suficiente, é algo que vou trabalhar, porque é mais uma maneira de me motivar. Mas toda a envolvência desta Maratona do Porto, quer pela organização, quer pelo público, quer pelas cidades em que corremos torna esta prova brutal! Se for possível, é uma prova que gostava imenso de repetir!





Notas:
1. Não percebo porquê é que os participantes de provas de corrida acham correcto correr em cima de passeios ou encurtar o caminho nas curvas..... Se a prova é feita na estrada com um piso mais irregular é apenas mais uma coisa que temos que suportar. Custa ter que correr num piso irregular? Custa, mas não vêm os atletas de elite a fazer isso pois não? Não é por causa disso que vão correr mais ou menos, deixem-se de tretas....

2. Até os atletas de elite puxavam por nós! Na altura em que estava a passar pela sport expo estavam a passar os atletas de elite na direcção oposta e vejo uma rapariga com um top às riscas e pensei logo que seria a Sara Moreira a dar força aos atletas amadores: "Força pessoal vocês conseguem". Afinal era a Salomé Rocha (não se esqueçam, se leram o meu relato, eu ia queimadinha da cabeça). Fiquei bastante emocionada com o facto dela, que tinha que estar mais preocupada com a sua prova, ainda ter motivação para nos dar um apoio.

3. O pessoal do porto é de um à vontade incrível. A dada altura passou por mim o pacemaker das 4h e havia uma rapariga que já devia estar a tentar fugir-lhe a algum tempo. Quando o vê a ultrapassá-la novamente solta um "Fodasse caralho não me digas que és tu outra vez caralho!" (não sei se foram estas palavras exactas mas havia muita asneirada no meio de tanta frustração ahahah).

domingo, 2 de julho de 2017

Ultra-Trail São Mamede (50 km), parte 2

Ok, passado mais de um mês resolvi acabar este meu relato. Apesar disso ainda ficaram muitas coisas  na memória. Ora recapitulando... a ideia era apanhar o meu irmão, que estava a fazer a prova dos 100 km, e depois servir de lebre. Só que as coisas não estavam a começar da melhor maneira porque estava com muitas dores de burro e o corpo estava demasiado tenso.

Depois do posto de abastecimento do Marvão, o percurso era bastante rolante: descer tudo o que tinha subido do outro lado da Serra, pela estrada romana. Devagarinho para controlar a dor, lá fui descendo a ouvir música. Como estava relativamente só, decidi começar a cantar baixinho para ter um ponto de distracção e começar a relaxar. Lady Gaga, Rihanna, Adam Lambert, LMFAO, Taylor Swift, etc. estavam a tornar-se nos meus melhores companheiros de corrida! Lancei para o ar tantas vez o "can`t read my, can`t read my, no you can`t read maaah poker face" que tenho quase a certeza que os poucos atletas que me iam passando ouviram e deviam pensar que estava a divertir-me imenso. E realmente estava a começar.

Por alguns km formou-se um grupo de atletas que iam sido ultrapassados e iam ultrapassando, onde me incluía. Apesar disso, nunca me senti incomodada e pressionada, como por vezes me sinto em provas mais curtas. Estávamos todos a lutar pelo mesmo e sem ideias de superioridade e por isso formou-se ali um espírito de camaradagem que dava bastante ânimo. Durante uma dessas ultrapassagens conheci a Maria, que estava a fazer pela primeira vez 50 km, como eu. Conversa puxa conversa e acabámos por ficar juntas por algum tempo, mas como ela estava mais fresca que eu acabava por ficar mais à frente, mas sempre a olhar por mim, a dar-me força. Outra atleta que andava neste jogo de ultrapassagens era uma espanhola, a Patricia, que estava a fazer a prova dos 100 km. Sempre que passávamos uma pela outra dávamos umas palavras de ânimo.

A prova estava a ser bastante agradável e previsível. Sempre que me aproximava de um posto de abastecimento, vinha uma subida. 
 
Subida até Castelo de Vide

Nos postos comia a minha marmelada, tomate e banana e bebia água e um pouco de coca-cola e lá ia eu. Depois de uma subida, vinha sempre uma descida. Apesar de serem duras não eram muito técnicas e com a minha velocidade tudo se conseguia fazer. Já nem pensava muito na "missão". Demorei bastante tempo a apanhar o meu irmão e foi uma coincidência feliz. O encontro deu-se logo após ter falado com dois atletas que tinham ido ao Montejunto Trail e eu ter perguntado se o tinham visto. Sensivelmente aos 42 km, estava ele a ver as fotos à sombra e de repente... olha eu conheço esta camisola! Como pensei que ele ia com grande pica previ que mais cedo ou mais tarde ele ia ultrapassar-me e seguir em frente, e por isso fui sempre no meu passo, e não ligava muito às perguntas que ele fazia em irmos os dois. Só que os meus 42 km eram para ele uns 90 km, e por isso o cansaço já se começava a manifestar. No penúltimo abastecimento ele teve que ficar a descansar por mais tempo que eu queria, e então decidimos ali cada um continuar com a sua prova. Apesar de não ir com "tempos estabelecidos", como não estava muito cansada, não queria arrastar-me e tinha em mente tentar acabar à volta das 8 horas. 

Já nos últimos km ainda haviam umas subidas pequenas e chatas, mas novamente, estava a ir à boleia de outro atleta que ia ultrapassando e que me ultrapassava. A partir dos 46 km, a prova era toda a descer até ao estádio. O entusiasmo foi aumentado à medida que ia vendo vestígios de "civilização". E quando me apercebi que o estádio estava a escassos metros lá tentei dar corda aos sapatos. Quando lá cheguei tive a felicidade em ter uma amiguinha que me acompanhou até à meta, a Bia. O local, o ambiente e a companhia deram-me umas forças finais para acabar a prova em grande!

A volta da vitória, feita no estádio.

Precisei de mais 21 minutos para além das 8 horas, mas felizmente acabei bem e ainda com forças para voltar atrás e tentar dar um ânimo final ao meu irmão. Foi uma prova que gostei bastante e que me permitiu ganhar confiança para provas futuras em que tenha que novamente fazer um solo. Porque na verdade, apesar da corrida ser um desporto muito individual e cada um ter a sua experiência, nos trilhos nunca estamos sozinhos.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ultra-Trail São Mamede (50 km), parte 1

Chegar a Portalegre e os 100 km

Este ano estava decidida a ir para lá da minha linha de conforto na corrida. Para além de fazer treinos melhores, queria entrar numa aventura que fosse quase impossível. Sentir aquele nervoso miudinho a crescer à medida que a prova se aproximaria, planear alimentação, treino e material. Sentir a incerteza e o impossível.

Em Dezembro do ano passado estava a contemplar até provas de 100 km e em Espanha e daí surgiu o Ultra-Trail de São Mamede. Na altura, depois de tanto pensar, e tendo em conta a minha preparação física, achei melhor não meter a carroça à frente dos bois e achei que a melhor opção seria inscrever-me na prova dos 50 km.

Decidi abordar a prova como se fosse o tal "evento impossível" e todo o planeamento de treino, alimentação, material e provas foram dedicados a esta prova. À medida que ia fazendo outras provas (maratona de Badajoz, trilhos do Almourol, Montejunto Trail) ia-me apercebendo que estava em condições de acabar os 50 km. Mas o nervoso miudinho nunca se desvaneceu. Seria a primeira prova longa sozinha. O meu irmão, que normalmente tem que estar sempre a um ritmo mais lento para me acompanhar, iria participar na prova dos 100 km.

Juntamente com a família Santiago/Nobre, lá fomos em direcção a Portalegre na manhã de sexta-feira. A ideia era ir com calma, almoçar pelo caminho, e chegar a tempo do meu irmão ainda poder descansar antes da sua prova (que começava às 00h00 de Sábado).

Chegados a Portalegre depois do almoço, fomos levantar os dorsais e deixar as coisas no pavilhão onde poderíamos dormir. Tudo e todos estavam preparados para a chegada dos atletas. A simpatia, o número e a preparação dos voluntários já indicava que iria ser um grande evento. Os atletas é que ainda eram poucos... o pavilhão estava praticamente às moscas, muito provavelmente porque seria dia de trabalho para a maioria, havia proximidade a casa e a possibilidade de dormir num local mais confortável. Claro que dormir numa caminha é muito bom, mas poder dormir num pavilhão rodeada de atletas e sentir a atmosfera da prova antes sequer dela começar é que tem piada! Acho que é uma coisa que irei sempre fazer, sempre que necessitar e estiver disponível.

À entrada do local da entrega dos dorsais. Atrás estava o estádio onde se inicia a prova dos 100 km e onde acabam todas as provas.

Com a aproximação do início da prova dos 100 km era impossível não começar a sentir o nervoso miudinho pelos que iam fazer a grande prova! Desde que comecei a tentar uma nova abordagem na corrida que tenho um novo respeito pelas provas. Acho que o pessoal da corrida gosta de trivializar um pouco os km. Compreendo de certa forma esta atitude, porque eu também estou sempre a tentar em puxar um pouco mais, e se consigo fazer X distância sem grande sofrimento é porque não é nada de especial o que fiz até agora. É um pensamento que tenho tentado lutar de forma a que nem seja nem 8 nem 80. Cada um sente a corrida de maneira diferente, mas a verdade é que a maioria da população portuguesa não é muito activa. Por isso, correr nem que sejam 5 km, 10 km, 50 km e 100 km é um feito do caraças! Mais do que os números de km, há que acima de tudo respeitar o esforço e a dedicação que as pessoas têm para atingir o seu objectivo na corrida. O resultado é só uma componente da aventura.
Portanto, apesar de haver "muita gente" a fazer 100 km, tenho uma grande admiração pelos valentes que vão à luta (mesmo os que não acabam tiveram um percurso antes, durante e depois da prova). Tenho que admitir que fiquei bastante emocionada em vê-los partir e com vontade de um dia fazer parte desse grupo de bravos.

 A partida do meu irmão na prova dos 100 km do Ultra Trail de São Mamede.

A minha prova, os 50 km do UTSM e o jogo do gato e do rato 
Eu e o meu irmão tínhamos combinado que cada um fazia a sua prova. O objectivo seria eu apanhá-lo e quando o ultrapassasse ele perseguir-me. Era uma forma de ficarmos motivados.

Para chegarmos a Porto da Espada, o local de partida da prova dos 50 km, tínhamos que apanhar um autocarro disponibilizado pela organização. Antes de apanhar o autocarro a mulher do meu irmão telefona-lhe para saber onde ele estava e se estava tudo bem (o percurso dos 50 km consistia na segunda metade dos 100 km por isso havia a possibilidade de o encontrar). A prova estava a ser bastante dura (mais difícil do que no ano passado) mas estava bem (tão bem que só o consegui apanhar nos últimos km da prova). Quando ouvi a parte da dificuldade da prova fiquei aliviada por não ter ido à dos 100 km mas nervosa por pensar que a minha também não seria pêra doce.

A viagem a Porto da Espada já permitia ter uma ideia dos sítios onde iríamos passar. Tive a sorte de ter um conterrâneo que estava a fazer a "tour" a outro atleta atrás de mim, o que me ajudou a descontrair. Só que quando chegamos a Porto da Espada ainda tivemos que esperar uns bons minutos (+/- 40 minutos) e pronto lá começou a aparecer o nervosinho. Comi os bolinhos que tinha e que não me iriam fazer falta, fui à casa de banho, telefonei ao meu irmão e ao meu namorado, aqueci e mesmo assim ainda tive mais tempo para stressar (nunca mais começava!). Perto da hora de partida coloquei-me na cauda do pelotão e dado o sinal lá fomos nós. Logo no início fomos brindados com uma subida bem íngreme para aquecer. Como estava no grupo de trás haviam algumas pessoas que preferiam fazer a subida a andar. Como não queria começar a prova logo a andar esforcei-me e tentei subir num passo curto. À medida que ia subindo devagarinho ia ultrapassando pessoas e algumas aproveitavam o balanço para começarem a correr também. Quando a subida acabou estava com as penas bastante pesadas e tive que recuperar. Um dos postos de abastecimento dos 100 km era logo no início da prova dos 50 km e assim que o passei comecei a tentar apanhar o meu irmão. 

Estava bastante nervosa e o meu corpo estava demasiado tenso para conseguir correr como queria. Felizmente a música ajudava a descontrair um pouco e sempre que ficava consciente (às vezes tinha que me abstrair um pouco para não pensar nas dores de burro e na tensão em que o corpo estava) tentava dar umas palavras de ânimo aos atletas dos 100 km que ia passando. Outra coisa que me estava a preocupar era a alimentação e a hidratação. Já estava há algumas provas sem utilizar geis e isotónicos porque tinha tido a sorte de me safar com fruta, marmelada e água nos postos de abastecimento. Em Portalegre ia apostar na utilização de um pó, o tailwind. A equipa que vende os tailwind (https://www.tailwindnutrition.pt/) é de uma simpatia extrema e até me ajudaram a planear a sua utilização durante a prova. Por isso, estava também preocupada com isso. Como não tinha utilizado nenhum tailwind até à prova, fiquei surpreendida por ser tão doce. Acho que a minha preocupação era tanta que parecia que me fazia mais sede do que aquela que tinha. Rapidamente comecei a pensar que seria melhor não fazer experiências durante a prova e testar o tailwind noutra altura.

O percurso até estava a ser bastante acessível até aos 8 km. A partir daqui até ao posto de abastecimento do Marvão era quase sempre a subir. Sensivelmente, aos meus 8 km (+/- 1 hora após o início da prova) a mulher do meu irmão telefona-me a dizer que o meu irmão estava no Marvão. Senti ainda mais pressão para me despachar porque pensava que iria conseguir apanhá-lo. Só que a subida até ao castelo do Marvão não era para meninos e não era coisa que iria despachar rapidamente. A subida era bastante inclinada e a vegetação fazia um micro-clima em que o ar se tornava abafado.  Demorei +/- 35 minutos a chegar ao abastecimento e ele já não estava lá. Estava com tantas dores de burro que não sabia o que comer e beber. Decidi então desistir do tailwind e voltar à minha tradicional receita: marmelada, coca-cola, água, banana e laranja.

 

sexta-feira, 31 de março de 2017

Porque é que corres???

Olá vazio da internet e dois ou três familiares e amigos que têm um tempinho na wc para ler isto! Já não relato as minhas aventuras no mundo das corridas há algum tempo.... Não é por falta de corridas ou treinos, muito pelo contrário. Este ano decidi tomar uma nova atitude em relação à corrida. Apesar de ter feito provas com alguma regularidade, sinto que o ano passado foi bastante sofrido. Poucos treinos, pouca distância e muita despreocupação e vitimização. Não que isso seja uma coisa má, até porque é bastante mais fácil manter esta atitude, do andar a "engonhar" e arrastar-me nas corridas. Acho que estava estagnada numa situação que só iria levar-me a um maior desinteresse na corrida e uma participação reduzida em provas (10 km de estrada aqui, 20 km de trail ali...).

Acho que o momento de viragem foi quando acabei a maratona do rock'n'roll de Lisboa sem grande treino e preparação e sentir que me tinha desviado de uma grande bala. Decidi que tinha que definir o que queria para 2017: 1) continuar a gastar dinheiro sempre nas mesmas provas mas que dão para sentir o nervosinho e a vontade de correr de vez em quando ou 2) aventurar-me no desconhecido e ir à luta.

Decidi então tentar o 2).... e por isso a minha estratégia é fazer menos provas, mais segura, mas que me permitam retirar sempre algo novo, para além do mais importante que é sentir-me bem comigo própria (uma das principais razões que me fez iniciar a corrida)! Quer seja por alcançar um tempo numa certa distância (e que não tem que ser necessariamente um tempo espetacular), mais km, uma área completamente nova, etc. No ano passado tinha provas fim-de-semana sim/fim-de-semana não, e por isso sentia-me na obrigação de correr, nem que fosse um bocadinho ali no jardim, e depois no dia da prova logo se via se dava ou não. Este ano vão ser menos provas (excepto em Abril, que já está mais do que sobrecarregado para o que previa fazer), mas mais duras. Com esta nova estratégia já consegui baixar o meu tempo da meia maratona para 1h54m e acabar uma segunda maratona em 3h59m. Os próximos desafios serão duros.... provas de trail com distâncias de maratona ou mais. Não vai ser fácil (e não está a ser fácil... fica para outro post), mas foi isto que decidi que queria. E tenho que estar constantemente a relembrar-me disto (próximo post...). Se a coisa não correr bem posso sempre voltar de bom grado às corridas de 10 km e de 20 km e saber que ao menos tentei. Mas por agora vou cerrar os punhos, manter os pensamentos longe da negatividade e ir à luta.... e se calhar correr um bocadinho....