domingo, 2 de julho de 2017

Ultra-Trail São Mamede (50 km), parte 2

Ok, passado mais de um mês resolvi acabar este meu relato. Apesar disso ainda ficaram muitas coisas  na memória. Ora recapitulando... a ideia era apanhar o meu irmão, que estava a fazer a prova dos 100 km, e depois servir de lebre. Só que as coisas não estavam a começar da melhor maneira porque estava com muitas dores de burro e o corpo estava demasiado tenso.

Depois do posto de abastecimento do Marvão, o percurso era bastante rolante: descer tudo o que tinha subido do outro lado da Serra, pela estrada romana. Devagarinho para controlar a dor, lá fui descendo a ouvir música. Como estava relativamente só, decidi começar a cantar baixinho para ter um ponto de distracção e começar a relaxar. Lady Gaga, Rihanna, Adam Lambert, LMFAO, Taylor Swift, etc. estavam a tornar-se nos meus melhores companheiros de corrida! Lancei para o ar tantas vez o "can`t read my, can`t read my, no you can`t read maaah poker face" que tenho quase a certeza que os poucos atletas que me iam passando ouviram e deviam pensar que estava a divertir-me imenso. E realmente estava a começar.

Por alguns km formou-se um grupo de atletas que iam sido ultrapassados e iam ultrapassando, onde me incluía. Apesar disso, nunca me senti incomodada e pressionada, como por vezes me sinto em provas mais curtas. Estávamos todos a lutar pelo mesmo e sem ideias de superioridade e por isso formou-se ali um espírito de camaradagem que dava bastante ânimo. Durante uma dessas ultrapassagens conheci a Maria, que estava a fazer pela primeira vez 50 km, como eu. Conversa puxa conversa e acabámos por ficar juntas por algum tempo, mas como ela estava mais fresca que eu acabava por ficar mais à frente, mas sempre a olhar por mim, a dar-me força. Outra atleta que andava neste jogo de ultrapassagens era uma espanhola, a Patricia, que estava a fazer a prova dos 100 km. Sempre que passávamos uma pela outra dávamos umas palavras de ânimo.

A prova estava a ser bastante agradável e previsível. Sempre que me aproximava de um posto de abastecimento, vinha uma subida. 
 
Subida até Castelo de Vide

Nos postos comia a minha marmelada, tomate e banana e bebia água e um pouco de coca-cola e lá ia eu. Depois de uma subida, vinha sempre uma descida. Apesar de serem duras não eram muito técnicas e com a minha velocidade tudo se conseguia fazer. Já nem pensava muito na "missão". Demorei bastante tempo a apanhar o meu irmão e foi uma coincidência feliz. O encontro deu-se logo após ter falado com dois atletas que tinham ido ao Montejunto Trail e eu ter perguntado se o tinham visto. Sensivelmente aos 42 km, estava ele a ver as fotos à sombra e de repente... olha eu conheço esta camisola! Como pensei que ele ia com grande pica previ que mais cedo ou mais tarde ele ia ultrapassar-me e seguir em frente, e por isso fui sempre no meu passo, e não ligava muito às perguntas que ele fazia em irmos os dois. Só que os meus 42 km eram para ele uns 90 km, e por isso o cansaço já se começava a manifestar. No penúltimo abastecimento ele teve que ficar a descansar por mais tempo que eu queria, e então decidimos ali cada um continuar com a sua prova. Apesar de não ir com "tempos estabelecidos", como não estava muito cansada, não queria arrastar-me e tinha em mente tentar acabar à volta das 8 horas. 

Já nos últimos km ainda haviam umas subidas pequenas e chatas, mas novamente, estava a ir à boleia de outro atleta que ia ultrapassando e que me ultrapassava. A partir dos 46 km, a prova era toda a descer até ao estádio. O entusiasmo foi aumentado à medida que ia vendo vestígios de "civilização". E quando me apercebi que o estádio estava a escassos metros lá tentei dar corda aos sapatos. Quando lá cheguei tive a felicidade em ter uma amiguinha que me acompanhou até à meta, a Bia. O local, o ambiente e a companhia deram-me umas forças finais para acabar a prova em grande!

A volta da vitória, feita no estádio.

Precisei de mais 21 minutos para além das 8 horas, mas felizmente acabei bem e ainda com forças para voltar atrás e tentar dar um ânimo final ao meu irmão. Foi uma prova que gostei bastante e que me permitiu ganhar confiança para provas futuras em que tenha que novamente fazer um solo. Porque na verdade, apesar da corrida ser um desporto muito individual e cada um ter a sua experiência, nos trilhos nunca estamos sozinhos.


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