sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ultra-Trail São Mamede (50 km), parte 1

Chegar a Portalegre e os 100 km

Este ano estava decidida a ir para lá da minha linha de conforto na corrida. Para além de fazer treinos melhores, queria entrar numa aventura que fosse quase impossível. Sentir aquele nervoso miudinho a crescer à medida que a prova se aproximaria, planear alimentação, treino e material. Sentir a incerteza e o impossível.

Em Dezembro do ano passado estava a contemplar até provas de 100 km e em Espanha e daí surgiu o Ultra-Trail de São Mamede. Na altura, depois de tanto pensar, e tendo em conta a minha preparação física, achei melhor não meter a carroça à frente dos bois e achei que a melhor opção seria inscrever-me na prova dos 50 km.

Decidi abordar a prova como se fosse o tal "evento impossível" e todo o planeamento de treino, alimentação, material e provas foram dedicados a esta prova. À medida que ia fazendo outras provas (maratona de Badajoz, trilhos do Almourol, Montejunto Trail) ia-me apercebendo que estava em condições de acabar os 50 km. Mas o nervoso miudinho nunca se desvaneceu. Seria a primeira prova longa sozinha. O meu irmão, que normalmente tem que estar sempre a um ritmo mais lento para me acompanhar, iria participar na prova dos 100 km.

Juntamente com a família Santiago/Nobre, lá fomos em direcção a Portalegre na manhã de sexta-feira. A ideia era ir com calma, almoçar pelo caminho, e chegar a tempo do meu irmão ainda poder descansar antes da sua prova (que começava às 00h00 de Sábado).

Chegados a Portalegre depois do almoço, fomos levantar os dorsais e deixar as coisas no pavilhão onde poderíamos dormir. Tudo e todos estavam preparados para a chegada dos atletas. A simpatia, o número e a preparação dos voluntários já indicava que iria ser um grande evento. Os atletas é que ainda eram poucos... o pavilhão estava praticamente às moscas, muito provavelmente porque seria dia de trabalho para a maioria, havia proximidade a casa e a possibilidade de dormir num local mais confortável. Claro que dormir numa caminha é muito bom, mas poder dormir num pavilhão rodeada de atletas e sentir a atmosfera da prova antes sequer dela começar é que tem piada! Acho que é uma coisa que irei sempre fazer, sempre que necessitar e estiver disponível.

À entrada do local da entrega dos dorsais. Atrás estava o estádio onde se inicia a prova dos 100 km e onde acabam todas as provas.

Com a aproximação do início da prova dos 100 km era impossível não começar a sentir o nervoso miudinho pelos que iam fazer a grande prova! Desde que comecei a tentar uma nova abordagem na corrida que tenho um novo respeito pelas provas. Acho que o pessoal da corrida gosta de trivializar um pouco os km. Compreendo de certa forma esta atitude, porque eu também estou sempre a tentar em puxar um pouco mais, e se consigo fazer X distância sem grande sofrimento é porque não é nada de especial o que fiz até agora. É um pensamento que tenho tentado lutar de forma a que nem seja nem 8 nem 80. Cada um sente a corrida de maneira diferente, mas a verdade é que a maioria da população portuguesa não é muito activa. Por isso, correr nem que sejam 5 km, 10 km, 50 km e 100 km é um feito do caraças! Mais do que os números de km, há que acima de tudo respeitar o esforço e a dedicação que as pessoas têm para atingir o seu objectivo na corrida. O resultado é só uma componente da aventura.
Portanto, apesar de haver "muita gente" a fazer 100 km, tenho uma grande admiração pelos valentes que vão à luta (mesmo os que não acabam tiveram um percurso antes, durante e depois da prova). Tenho que admitir que fiquei bastante emocionada em vê-los partir e com vontade de um dia fazer parte desse grupo de bravos.

 A partida do meu irmão na prova dos 100 km do Ultra Trail de São Mamede.

A minha prova, os 50 km do UTSM e o jogo do gato e do rato 
Eu e o meu irmão tínhamos combinado que cada um fazia a sua prova. O objectivo seria eu apanhá-lo e quando o ultrapassasse ele perseguir-me. Era uma forma de ficarmos motivados.

Para chegarmos a Porto da Espada, o local de partida da prova dos 50 km, tínhamos que apanhar um autocarro disponibilizado pela organização. Antes de apanhar o autocarro a mulher do meu irmão telefona-lhe para saber onde ele estava e se estava tudo bem (o percurso dos 50 km consistia na segunda metade dos 100 km por isso havia a possibilidade de o encontrar). A prova estava a ser bastante dura (mais difícil do que no ano passado) mas estava bem (tão bem que só o consegui apanhar nos últimos km da prova). Quando ouvi a parte da dificuldade da prova fiquei aliviada por não ter ido à dos 100 km mas nervosa por pensar que a minha também não seria pêra doce.

A viagem a Porto da Espada já permitia ter uma ideia dos sítios onde iríamos passar. Tive a sorte de ter um conterrâneo que estava a fazer a "tour" a outro atleta atrás de mim, o que me ajudou a descontrair. Só que quando chegamos a Porto da Espada ainda tivemos que esperar uns bons minutos (+/- 40 minutos) e pronto lá começou a aparecer o nervosinho. Comi os bolinhos que tinha e que não me iriam fazer falta, fui à casa de banho, telefonei ao meu irmão e ao meu namorado, aqueci e mesmo assim ainda tive mais tempo para stressar (nunca mais começava!). Perto da hora de partida coloquei-me na cauda do pelotão e dado o sinal lá fomos nós. Logo no início fomos brindados com uma subida bem íngreme para aquecer. Como estava no grupo de trás haviam algumas pessoas que preferiam fazer a subida a andar. Como não queria começar a prova logo a andar esforcei-me e tentei subir num passo curto. À medida que ia subindo devagarinho ia ultrapassando pessoas e algumas aproveitavam o balanço para começarem a correr também. Quando a subida acabou estava com as penas bastante pesadas e tive que recuperar. Um dos postos de abastecimento dos 100 km era logo no início da prova dos 50 km e assim que o passei comecei a tentar apanhar o meu irmão. 

Estava bastante nervosa e o meu corpo estava demasiado tenso para conseguir correr como queria. Felizmente a música ajudava a descontrair um pouco e sempre que ficava consciente (às vezes tinha que me abstrair um pouco para não pensar nas dores de burro e na tensão em que o corpo estava) tentava dar umas palavras de ânimo aos atletas dos 100 km que ia passando. Outra coisa que me estava a preocupar era a alimentação e a hidratação. Já estava há algumas provas sem utilizar geis e isotónicos porque tinha tido a sorte de me safar com fruta, marmelada e água nos postos de abastecimento. Em Portalegre ia apostar na utilização de um pó, o tailwind. A equipa que vende os tailwind (https://www.tailwindnutrition.pt/) é de uma simpatia extrema e até me ajudaram a planear a sua utilização durante a prova. Por isso, estava também preocupada com isso. Como não tinha utilizado nenhum tailwind até à prova, fiquei surpreendida por ser tão doce. Acho que a minha preocupação era tanta que parecia que me fazia mais sede do que aquela que tinha. Rapidamente comecei a pensar que seria melhor não fazer experiências durante a prova e testar o tailwind noutra altura.

O percurso até estava a ser bastante acessível até aos 8 km. A partir daqui até ao posto de abastecimento do Marvão era quase sempre a subir. Sensivelmente, aos meus 8 km (+/- 1 hora após o início da prova) a mulher do meu irmão telefona-me a dizer que o meu irmão estava no Marvão. Senti ainda mais pressão para me despachar porque pensava que iria conseguir apanhá-lo. Só que a subida até ao castelo do Marvão não era para meninos e não era coisa que iria despachar rapidamente. A subida era bastante inclinada e a vegetação fazia um micro-clima em que o ar se tornava abafado.  Demorei +/- 35 minutos a chegar ao abastecimento e ele já não estava lá. Estava com tantas dores de burro que não sabia o que comer e beber. Decidi então desistir do tailwind e voltar à minha tradicional receita: marmelada, coca-cola, água, banana e laranja.

 

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