domingo, 28 de janeiro de 2018

Ultra Trilhos dos Abutres - DNF, DO NOTHING FOOLISH

Decidi não continuar.... 



Pensei duas, três, e não sei quantas vezes se deveria escrever este post porque não quero que sirva como uma maneira de arranjar desculpas, mas tenho a certeza de que se tivesse acabado esta prova faria um breve resumo para que ficasse registado.

Para além disso, apesar de não escrever muito aqui, quero que este blog seja uma representação realista, e por vezes há dias bons e outras vezes há dias maus. E ontem foi um dia mau.

Então vamos lá.... já não fazia provas de trilhos desde Agosto e apesar de todos os fins-de-semana desde meados de Dezembro, fazer um treino longo de trilhos, não estava muito calejada. Nos treinos consegue-se sempre arranjar maneira da parte "difícil" não ser assim tão má (aah e tal posso ficar lesionada, tenho que ter calma).

Nunca tive grande ambição imediata em ir aos Abutres, porque tinha (e continuo a ter) muito respeito pela prova. Sempre achei que não tinha estaleca e não era feita para esse campeonato. Este ano o meu irmão aventurou-se em meter o nome dele no sorteio para a distância dos 50 km e eu só naquela de ver no que dava resolvi meter o meu também. O meu nome foi dos últimos a sair e na altura fiquei apavorada sem saber o que fazer. Quando surgiu a altura de fazer o pagamento já não havia volta a dar, ia aos Ultra Trilhos dos Abutres. Treinei e no último mês antes da prova arranjei uma super treinadora que me fez um plano de treinos que segui quase à integra. 

Quando chegámos a Miranda do Corvo dava para perceber que os Trilhos dos Abutres não são uma prova qualquer. A quantidade de pessoal envolvido, as instalações enormes e sempre com a marca "Trilhos dos Abutres" mostrava que era uma prova muito séria. Tão séria que não me deixaram levantar o dorsal apenas com a mensagem no telemóvel, tinha que ter o meu documento de identificação e mostrar que depois de receber o dorsal também recebia a sms de confirmação.


Na partida tivemos que mostrar todo o equipamento obrigatório e depois fomos encaminhados (enchouriçados) para uma tenda onde esperámos. A alguns minutos antes da partida somos encaminhados para o pórtico e dado o sinal lá fomos nós! Os primeiros kms são bastante fáceis, por ruas, trilhos fáceis e passadiços. Os passadiços estavam escorregadios e havia muita a gente a querer andar logo ali e por isso perdeu-se algum tempo desnecessário. Mas de nada valia esticar-me ali porque a primeira subida estava à minha espera. Não era técnica, mas era longa e tinha um brinde do caraças.


Depois da subida, chegamos ao Templo Ecuménico e somos presentados com uma vista espetacular de trazer lágrimas aos olhos. A dimensão dos montes, as cores e as nuvens revelavam a imensidão da serra. Mas a preocupação em correr era tanta que nem pensei em parar para apreciar o que estava a ver. Começamos logo a descer e novamente a paisagem estava ali para quem quisesse apreciar. Tinha que parar:


Estava tudo a correr muito bem e nunca me passou pela cabeça que não iria acabar. Ia com uma missão: chegar aos 17 km com 2h30 para que depois tivesse tempo de fazer os 11 km seguintes até às 5h30m. A partir do km 10 começam a surgir as pedras e os obstáculos que me fazem perder imenso tempo. O meu irmão assim que percebeu que eu não ia conseguir "computar" a complexidade do terreno mais rapidamente do que normalmente faço, foi-me deixando para trás. Sim, era giro irmos os dois e emocionalmente deixou-me um pouco em baixo. Mas imediatamente a razão falou e não havia nada que ele pudesse fazer, por isso ficar comigo só iria estragar a sua experiência. Para além disso, nunca tive sozinha e metia sempre conversa com as pessoas que vinham comigo (quando surgia a oportunidade).

O tempo passava e as pedras iam sendo mais e a lama (mesmo sem grande chuva) estava sempre lá. Receita certa para a minha insegurança. A minha capacidade em fazer as subidas íngremes sem grande dor ou cansaço, mesmo que devagarinho, aumentava a minha confiança (ainda bem que segui o plano de treinos!) e de certa forma começava a compensar a insegurança. Mas as subidas pareciam muito pequenas para as descidas que fazia. E a minha pandice não me deixava correr ou ser mais ágil nos trilhos de pedras. Cheguei ao primeiro abastecimento, dos 17 km, com 2h46m e já começava a ficar preocupada. Lembrei-me do que a minha treinadora me disse e fiquei o mínimo possível ali. Enchi os soft flasks, bebi um bocado de isotónico, comi um bocado de banana e laranja e lá fui eu com o copo de água na mão. Uma amiga das corridas veio comigo e foi a minha companhia nos kms seguintes. Os trilhos até às eólicas eram novamente mais fáceis e mesmo a subida não era nada complicada (apesar de ser o ponto mais alto da primeira parte). Voltava a confiança. Mas depois tudo o que sobe tem de descer e aí lá foi a confiança outra vez. Não me lembrava do perfil de altimetria e estava sempre a pensar no momento em que iria parar de descer. Infelizmente esse momento estava apenas no posto de abastecimento seguinte, e a minha ansiedade em querer parar de descer e ganhar tempo quando pudesse correr não parava de aumentar. Já não estava a divertir-me e apesar da corrida envolver algum sofrimento e tolerância, a duração da frustração estava a ser bem maior do que a da alegria. Nas descidas fui apanhada por diversas pessoas, umas que tinham a tolerância e a paciência em deixar-me descer ao meu ritmo e outras (poucas) menos tolerantes que lançavam palavras de exasperação para o ar (eu só pensava: eu também quero chegar a tempo porra! tivesses corrido mais para não me apanhares....). As descidas iam envolvendo cada vez mais a passagem de pedras todas enlameadas e com pouca margem de manobra. Não podia perder tanto tempo a pensar onde pôr o pé. A irritação começava a ganhar e o tempo a passar... já estava a analisar toda a prova: ora esta parte é a mais fácil e nem sequer consigo ter reflexos rápidos o suficiente para não parecer uma mariquinhas tão grande. Se a parte pior ainda está para vir (a parte pior é entre os 20 e 40 km), não vou conseguir sequer mexer-me e vou ficar minutos a pensar o que fazer. Estava decidida: ia parar. Quando a decisão surgiu na minha mente, as lágrimas quase que me vieram aos olhos (ainda bem que estava sozinha.... por uns segundos... ai que vem ali alguém, não chores....). Não porque não estava a gostar, mas porque não estava cansada não tinha dores em lado nenhum, mas mesmo assim ia ficar por ali. Era uma nulidade naquele tipo de terreno e com as pessoas todas a passar e a ficar sozinha, poderia criar uma situação muito má. Pensando friamente no que estava a acontecer parecia a decisão responsável a tomar. Depois de estar decidida comecei a andar ainda mais devagar de forma a não ter que dizer alto e bom som, quero desistir. Preferia ser barrada no posto de controlo do que ter que tornar a decisão real. Quando cheguei à mítica descida que temos que ir agarrados a cordas (estilo rapel) sentei-me e esperei. Quando começaram a surgir mais atletas que vinham atrás de mim com pressa para não serem barrados decidi descer uma parte com eles. A meio voltei-me a sentar, mas havia um grupo de pessoas da organização a ver e a dar força. Não conseguia fazer-lhes aquilo, e decidi descer ao meu ritmo lentinho. Quando cheguei em baixo disse-lhes o mais rapidamente possível para não desatar a chorar: "obrigada malta, mas vou ficar por aqui". Eles não queriam saber e deram-me força para ir correr os últimos metros para chegar antes de ser barrada para pensar melhor.

Fui a última pessoa a conseguir passar o controlo de tempo. Os atletas que vinham imediatamente atrás de mim foram barrados, sem qualquer contestação e tolerância. Depois de ter que dizer as palavras, tive que devolver o meu dorsal. O pessoal da organização foi 5* a tentar animar-me e a dar-me tratamento "vip" enquanto esperava pelo autocarro (sopinha da pedra... estava mesmo boa!). Eu tentei ir na onda e largava umas piadas para não me ir abaixo. Depois todos os atletas barrados naquela altura, e eu, fomos no autocarro até à chegada e lá estava eu onde tudo tinha começado 6h antes.

Os Abutres sempre estiveram na minha mente como algo intangível, só para os melhores.
É difícil? É, muito. É impossível? Não, mas exige muito treino específico e resistência. A resistência estava lá, pois no final não estava cansada. Os calos mentais não. E apesar de ter passado quase um dia, vai ser algo que me vai ser difícil de engolir.... O chato agora é ter uma t-shirt toda gira e boa e estar "manchada" com esta prestação.... ;)

Eu não sou uma atleta, nem por sombras. Vou correndo (daí o meu blog ser running e não runner). As distâncias que ambiciono fazer levam a que tenha que treinar frequentemente, para ganhar resistência, mas não é nada do outro mundo. Eu compreendo que para alguns parece que estou a levar isto tudo muito a sério, mas a verdade é que isto não é nada. A sério. Venham a uma prova de trilhos e vejam a quantidade de pessoas e os tempos que conseguem fazer. Infelizmente a nossa vida quotidiana trás outras responsabilidades que levam a que actividade física para muitos seja muito reduzida ou mesmo ignorada. Já não precisamos de fugir de predadores nem andar kilómetros para conseguirmos a refeição do dia. Por isso ver treinos e provas destas quase que parece coisas para malucos. Mas o nosso corpo é fantástico, é só uma questão de o utilizarmos. E as recompensas são mais do que apenas físicas.... Mas isto seria tema para outra conversa e não quero "converter" ninguém à prática de exercício físico.

Bem o post já vai longo, mas acho que a mensagem principal ficou!


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