Pensei 1,2,3 1000 vezes se deveria escrever este post. Não sou menina de chover no molhado, odeio ter que pensar muito sobre o que já passou porque por muito tempo que pense o que está feito está feito (duuh). Para além disso, este blog começa a tornar-se mais no meu muro das lamentações do que no meu relato sobre as experiências que tenho em provas de corrida. Desde o último post dos Abutres já participei em mais algumas provas: 30 km Montes Saloios, 50 km de Sicó, Meia da Ponte, 44km Trail de Monsaraz. Todas elas correram lindamente, até ter chegado a esta que vou relatar: Ultra Trilhos da Gardunha.
É uma prova muito bonita mas também muito dura. Atrevo-me a dizer que a parte que "corri" (não foi bem correr porque não havia grandes extensões corríveis) era comparável à parte da prova dos Abutres que fiz. Aliás acho que corri mais nos Abutres do que na Gardunha. Não era algo que estava à espera. Logo no início já estava mal disposta, provavelmente devido à bruta sandocha que tinha comido com manteiga de amendoim e doce de morango com café com leite frio. Não era o meu pequeno almoço habitual, mas pensei em enfardar. Já dava para ver que a prova não ia ser fácil pela altimetria e então já estava a tentar compensar com o que conseguisse. Na semana anterior à prova poucos treinos consegui fazer porque estou na recta final da minha tese e chega o momento em que tem de ser prioritária. E o sentimento de culpa em largar o meu "bébé" por umas horas é muito grande. Portanto, poucos treinos + má disposição inicial = potencial desastre em formação.....
Novamente lá fui eu mais o meu irmão e quando o sinal da partida deu não tardou muito em ficarmos na cauda do pelotão. Mas não era nada de novo até porque prefiro fazer as provas de trás para a frente do que rebentar no início e ver toda a gente a ultrapassar-me. Prefiro ultrapassar uns poucos do que ser ultrapassada por muitos. Depois dos primeiros ~3 km em que dava para esticar as pernas começámos a subir a serra pedregulho atrás de pedregulho mas sempre com cursos de água muito próximos. A beleza do percurso dava para esquecer um pouco a dificuldade daquela parte inicial. Pensei que aquilo não poderia ser sempre assim e que mais cedo ou mais tarde poderia dar uso ao meu ponto forte, ir passito a passito, devagar devagarinho, a correr. Mas não, a dificuldade não diminuía. O meu irmão já bastante frustrado comigo tentava puxar por mim da melhor maneira que ele conseguia. Mas isso nem sempre é o melhor para nós, tartaruguinhas, e vou falar mais disso num post seguinte para que este não fique demasiado longo. Duvido que alguém venha ler isto, ver um post deste tamanho assusta. O meu namorado que o diga.
Quando chegámos ao primeiro abastecimento tentei trocar umas palavras com a organização sobre a dificuldade do percurso, se haveria luz ao fim do túnel. Palavra puxa palavra e um dos rapazes que lá estava entre dentes e com um sorriso maroto vira-se "ah as subidas vão começar a ser menos exigentes, mas quando começarem a descer para Alpedrinha (o segundo abastecimento) vão desejar que fosse a subir". E realmente assim foi. Mas também outro rapaz disse-me algo que me conseguiu animar "ah não se preocupe, demore o tempo que demorar, nós vamos estar na chegada para vos receber". Depois destas últimas palavras quase que me vieram as lágrimas aos olhos (sou muito sensível....) e deu-me algum ânimo.
Apesar de ir bastante devagar, começava a ficar um pouco melhor e mais animada e o percurso até à maldita descida até correu bem. A descida era feita em pedregulhos grandes onde não havia muita margem para meter o pé e alguns estavam bastante escorregadios por causa do curso de água que corria ali. A dificuldade dos Abutres veio-me à memória e não sei se foi de começar a ficar com medo dei um bate cu no meio dos pedregulhos e só parei de escorregar quando bati com os joelhos no pedregulho que estava à minha frente. Passados alguns dias posso dizer que ficaram apenas doridos, mas na altura o joelho direito doía-me imenso. Uma das senhoras bombeiras que estavam no final da descida (parece que já estavam a adivinhar) colocou-me uma pomada para as dores e lá fui eu.
Entre o segundo e terceiro abastecimento, o percurso era mais "acessível" mas sempre a subir. Houve uma parte no meio da serra que com a terra castanha molhada e as árvores, parecia que estava na Barkley. Os metros finais até ao terceiro abastecimento era um pouco "parvos" porque tínhamos que fazer subidas íngremes desnecessárias com percursos mais acessíveis mesmo ao lado. Uma das subidas não conseguia fazer e fiquei parada a meio deitada na terra, se não fosse um outro atleta a puxar-me tinha rebolado até ao início da subida macaca e parva. Chegámos ao terceiro abastecimento 20 minutos antes de atingirmos a barreira horária. O meu irmão já estava a ficar bastante frustrado com o percurso e se calhar por minha causa porque preferia que eu fosse com ele.
Quando saímos do abastecimento pensávamos que a subida até o ponto alto da serra seria feita no estradão que estava visível e nem olhámos para as fitas. Mas passado algum tempo estávamos a começar a achar estranho não haver macacadas e fitas para marcar o percurso nem vê-las. Lá tivemos que voltar para trás e fizemos 1 km a mais do que o previsto. O joelho estava a começar a doer outra vez e estava a ficar para trás. Até que vimos uma rapariga conhecida e que anteriormente já nos tinha apanhado e acompanhado numa parte do percurso e que tinha acabado de falar com o namorado que ia mais à frente. Dizia ela: "Ah a organização está a aconselhar parar nos 30 km se não chegarmos lá por volta das 14h30". Faltava cerca de 1h30 e o meu irmão achou que pelas palavras dela, ela iria desistir e como eu não estava em condições resolveu dar-me a chave do carro e ficar com ela. Lá foi ele sozinho e aproveitar a prova à sua maneira. A rapariga acabou por não desistir e ir também na dela, mas eu ia com bastantes dores no joelho e tinha que fazer uma descida "parva" (isto porque o estradão no qual eu e o meu irmão nos perdemos ia parar ao percurso da prova) no meio de pedras finas e soltas. Fiquei bastante tempo neste troço a pensar o que deveria fazer. Se a dor seria daquelas coisas que os "ultra" corredores têm que aguentar ou se seria mesmo melhor parar. Mas se quisesse continuar como é que iria resolver a situação de ter a chave do carro do meu irmão?? Eventualmente fui apanhada por um senhor que ia desistir aos 30 km porque também se tinha lesionado. Fomos a conversar sobre provas que já tínhamos feito e sem darmos por isso já estávamos no abastecimento dos 30 km.
Logo a seguir surgem os últimos atletas, o vassoura e uma senhora que não me irei esquecer e que vai ser uma das minhas inspirações, a Célia. Não a conheço e não sei qual é a sua história, mas quando começaram a falar sobre ela senti que havia ali muito carinho e respeito pelo que ela faz. Ficou muito pouco tempo no abastecimento e assim que lhe perguntaram se ela queria desistir deu corda aos sapatos e saiu dali. Pelo que percebi ela faz provas bastante longas e duras. É sempre das últimas a chegar, mas acaba-as. Há uns tempos tinha feito uma prova de 200 e tal km, se me lembro bem do que ouvi, na Itália e à sua maneira acabou-a. E acabou os ultra trilhos da Gardunha à maneira dela. E isso vai ser uma das coisas que vou interiorizar. Enquanto não me mandarem embora, vou continuar, sozinha à minha maneira, a fazer a minha prova.

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