Não era para fazer este relato porque queria tentar ficar com as memórias
só para mim e sinceramente não sei se alguém ainda tem tempo e paciência para
ler estas coisas. Mas acho que se passou tanta coisa que gostaria que ficasse
impresso para além da minha frágil cabeça, que às vezes nem do jantar do dia
anterior se lembra. Mas a essência destas aventuras não são fáceis de apagar.
Ficam agarradas na cabeça como se de uma cicatriz se tratasse. E adoro todas as
marcas de guerra mentais e físicas que vou arranjando. Ora se passado meio ano do Estrelaçor alguém me perguntasse pelo caminho
dos 100 km agora, ainda iria conseguir fazer quase todo o trajecto na minha
cabeça e quase visualizar-me a fazê-lo, seja de dia ou de noite. Por alguma
razão, o trajecto da primeira noite do Marão está a esfumar-se e foi também uma
das razões que me levou a fazer este relato. Ainda estão comigo? Ora bravos
corajosos, aqui vai!
Em Dezembro, quando a Tuxa me convidou a fazer parte da equipa da AMC –
Arrábida Trail, um dos requisitos era fazer a prova dos 105 km do Marão. Na
altura esta prova estava a milhas de distância do meu radar. Porque seria a
minha terceira prova de 3 digítos, porque apresentava muita altimetria, porque era
numa altura do ano em que as condições meteorológicas eram instáveis e porque
pela opinião de outros amigos era uma prova muito dura. Não tinha a certeza que
conseguiria acabar mas o apoio da Tuxa e a minha curiosidade fez com que
aceitasse o desafio. Ora não sei se consigo, mas vou tentar! Os treinos tiveram
que ser feitos quase todos no Monsanto, mas no último mês tentei fazer treinos
com menos km e mais altimetria em Sintra. Tentar ir aos treinos de grupo da
malta fixe e meter umas provas pelo caminho. Infelizmente só consegui ir a duas
provas “puxadas” o Ultra Trilhos dos Reis e a prova dos 54 km de Sicó. O
percurso pré-Marão podia ter sido melhor, com mais provas técnicas e treinos
noutros sítios, mas temos que fazer limonada com os limões que a vida nos dá e
não chorar muito sobre o assunto e seguir em frente…. Pode ser uma coisa
estranha de se dizer, mas apesar de nunca me ter sentido muito confiante no
percurso até ao Marão nunca pensei demasiado que não iria acabar. Tinha medo, mas
ia lutar até ao fim. Uma prova de 105 km com 6000m de desnível não pode ser
feita com 3 cantigas. TEM de ser feita com dificuldade e algum tipo de
sacrifício.
O Francisco (namorado) tinha decidido que não ia comigo. Já me tinha
acompanhado nas duas provas de 100 km e esta prova seria muito longe e muito
longa. Compreensivelmente aceitei, mas no último momento apercebeu-se que esta
prova era coisa séria, mais difícil que o Estrelaçor, e lá foi ele fazer de
equipa de apoio.
Chegados a Amarante levantámos o dorsal e jantámos com malta da equipa, a
Sofia, o Diogo e o Marcolino. Depois de umas bifanas e arroz, ainda deu tempo
para passar muito rapidamente no supermercado (que stress!!) e vestir o
equipamento no balneário do pavilhão onde iríamos dormir no dia seguinte. Com
apenas 30 minutos antes da prova não deu para apanhar a minha “lebre”, a Ana
Lúcia, que tinha muuita mais experiência nesta prova (não sei se será a única
pessoa a ir a todas as edições da prova longa do Marão e terminá-las). Nos
momentos anteriores a uma prova fico sempre apavorada (chego a vomitar muitas
vezes). Mas felizmente vi a cara sempre simpática do meu companheiro de treinos
finais, o João Menezes! Nos últimos minutos fiquei à conversa com ele, mas como
cheguei tão em cima do tempo, foi quase entrar e sair.
O frio não se fazia sentir graças aos conselhos da Marília Noro, com quem
falei durante um treino antes do Marão. Tinha vestido uma camisola de neve da
berg, a camisola de manga comprida de Sicó, o impermeável e umas calças com uns
calções por cima (para não se notar tanto o rabiosque). Tinha umas luvas de
poliamida da berg, mas que rapidamente tirei. Os primeiros 4-5 km da prova
foram todos feitos dentro da cidade ou em estrada e depois do nervosismo
inicial ter passado entrava então a preocupação das barreiras horárias. A minha
grande preocupação! Outra coisa estranha; nunca tive medo da distância, porque
os km conseguem-se sempre fazer (a mal ou bem, se estivermos sempre em
movimento acabam por ser feitos). O meu grande receio foi sempre o conjunto 105
km + 6000m de desnível + menos de 25horas. O Estrelaçor tinha 5784m de desnível
e acabei com 26h30m… este Marão iria ser mesmo à rasquinha… Por isso estavam sempre
presentes na minha cabeça as malditas barreiras horárias! Analisei bem o perfil
de altimetria e tentei saber ao máximo sobre o percurso da prova. Pelo que
conseguia apanhar, a primeira parte da prova seria a mais difícil e depois dos 80
km a prova era bastante rolante.
A parte da noite
Os primeiros 17 km teriam que ser feitos em menos de 3h30 (a primeira
barreira horária) e estava focada e presente. Eram mais de 1000m de desnível
positivo e uma descida técnica à noite. Por vezes estou a correr mas estou num
transe de maionese/comiseração comigo própria que quase que me esqueço do que
estou a fazer…. Mas naquela noite não porra! Ficas a viajar na maionese no km
vertical! Ainda consegui ver mais outro amigo das corridas, o Rui Ferreira, que
iria fazer pela primeira vez uma prova de 3 dígitos (e que bem que fez!!). Estávamos
os dois a um bom ritmo mas ele estava bem mais forte do que eu e foi fazer a
prova dele e eu fiquei a fazer a minha. Os km seguintes eram feitos ou nas pequenas terriolas ou em trilhos pouco técnicos. Felizmente, ao
contrário do Estrelaçor, como estava num bom ritmo estive sempre com gente à
minha volta. Infelizmente por vezes a presença de outras pessoas pode não ser sempre
bom quando essas pessoas acham que têm de dizer alguma coisa e num certo tom.
Estava acompanhada de outros dois atletas, um à frente outro atrás, quando o
que estava à minha frente por se sentir pressionado perguntou-me se queria
passar. Ora aceitei e disse-lhe que mais tarde iriam apanhar-me e que estava a
aproveitar os trilhos fáceis o máximo que conseguia. Na mesma altura em que
saiu da frente arrependeu-se e meteu-se à frente outra vez. Irritado (ou então
nervoso), volta-se para mim e diz “você está a queimar-se muito depressa, isto
é para ir com calma”. Ainda estive alguns km com este senhor, e numa subida voltou-se
novamente para mim com o seu tom irritado/nervoso “você já está a morrer, assim
não chega longe”. Isto porque, penso eu, associou a minha respiração e
movimentos rápidos a dificuldades…. Acho que as pessoas têm de correr como se
sentem confortáveis e não estar a pensar em coisas parvas como não fazer muito
barulho com os pés ou respirar de uma forma mais lenta porque os outros podem
não gostar. Ora podia não estar a fazer sons semelhantes a um ataque asmático,
mas estava com uma respiração forte. Mas é assim que me sinto confortável, é
assim que vou à luta. Também tive um rapaz a fazer barulhos estranhos ao meu
lado durante um tempo durante a noite mas nunca lhe disse “epah não faças esses
sons de equino que estou a ficar nervosa com a tua respiração”. Cada um corre
como quer. As subidinhas “simpáticas” dos primeiros km começavam a atrair os
bastões do pessoal e eu que normalmente odeio correr de bastões saquei dos meus
já na última subida, prevendo que iria usá-los na descida complicada. E assim
foi. A descida era feita num trilho com terra e pedras e era bastante
inclinada. Eu que não sabia de todo usar bastões nas descidas, fiz um clique no
instinto de sobrevivência e lá dei uso aos bastões. Mas as descidas são o meu
grande calcanhar de Aquiles. Mesmo com bastões e tentando impor algum ritmo, os
atletas que vinham atrás de mim ultrapassavam-me assim que podiam. Era o início
do Estrelaçor de novo…. Para evitar ficar sozinha tentei sempre ir a um ritmo
mais rápido que o meu ritmo natural nas descidas e numa secção em que a terra
estava escorregadia caí. Mas como o espírito de sobrevivência estava activo,
para tentar amparar a queda tentei resistir mas não consegui. Ao colocar mal o
joelho senti algo a desprender. Primeiras dores, pimbas! Ainda faltava um pouco
da descida, mas estava determinada em acabar aqueles 17.9 km sem choramingar e
fazer-me de coitadinha. Chegada ao primeiro abastecimento, com 2h48 (bem longe
da barreira), lembrei-me do que a Tuxa disse. Entrar e sair dos abastecimentos
para não arrefecer e perder tempo e não perder o ânimo. Com algumas dores no
joelho sabia que a pior parte vinha agora e tinha que aproveitar o momento
mental em que estava. As descidas eram bastante inclinadas mas o terreno não
era demasiado complexo. Tinha algumas pedras e raízes mas nada que não tivesse
feito noutras provas (era nisso que me estava a focar). Segundo abastecimento à
vista e sempre com a vontade de continuar em frente e não engonhar. Novamente tentei passar
pouco tempo no abastecimento e fui tão rápida que o Francisco nem sequer estava
à minha espera. Queria comer algo quente mas como não tinham nada, não queria
ficar ali a perder tempo. 28 km feitos em 4h48m, e o próximo abastecimento
seria a primeira base de vida. Estava a correr bem e estava a sentir-me bem
apesar das dificuldades. A parte da noite estava a ser dura, mas não estava a
ser o bicho papão que tinha feito na minha cabeça. Do segundo abastecimento ao
terceiro, o meu irmão começa a telefonar-me para seguir-me mais proximamente. Sem
querer, a primeira coisa que lhe digo sobre a prova era que estava a ser dura. E
estava. As subidas eram mais duras que as descidas. E as descidas não eram bem
aproveitadas. Mas também estava feliz por estar a fazer o Ultra Trail do Marão
e estar a correr bem tendo em conta as minhas capacidades. Começava então a
ganhar um excesso de confiança que foi fatal nos km seguintes. Como haviam
muitos km feitos em trilho aberto comecei a baixar a guarda em termos de
atenção e numa descida de gravilha e pedras soltas coloquei tão mal o pé direito que
torci o tornozelo de forma a cair cheia de dor e gritar aos céus “ai ai ai, que
dói”. Sozinha, não me conseguia levantar e depois do choque fiquei estatelada
no chão à espera que surgisse alguém para me conseguir levantar. Eis que surge
um atleta estrangeiro que ficou na dúvida se deveria ajudar-me ou não… antes
que dissesse alguma coisa perguntei-lhe “could you help me, please?”. Ele pelos
seus movimento não sabia mesmo o que fazer mas rapidamente disse-lhe tinha
torcido o tornozelo. E ele rapidamente perguntou-me se me podia deixar. Cada um
faz a sua prova, no hard feelings. Cheia de dores e com o ego ferido por ter
falhado numa parte estúpida lá tentei ir a um ritmo mais rápido que a
caminhada. Novo telefonema do meu irmão. Tentámos descobrir onde andava a minha
lebre Ana Lúcia para me tentar agarrar à sua experiência, mas como haviam duas
Anas não dava para perceber se era uma atleta que estava à frente ou a atleta
que estava atrás. Finalmente estava no meu “ambiente”. Sozinha. Não é algo que
me aborreça porque treino quase sempre assim, mas acho que a partir desta queda
a minha confiança lutadora que estava ao rubro nunca mais foi a mesma. A falar
com o meu irmão novamente a fazer queixinhas que tinha caído e que estava a ser
duro, o meu irmão mete-me no sítio! “Ninguém quer saber que caíste pá, anda lá
com isso mas é!”. E foquei-me nestas palavras, não interessa que tenha caído, o
que interessa é continuar. 10min/km é sempre melhor que 14min/km. A noite
começava a ficar mais fraquinha e parece que sentia o nascer do sol a aparecer. A
última descida até Pardelhas era inclinada (novidade!) e mais técnica que as
outras até ao momento. Eram pedras de xisto e o ar começava a ficar
húmido por estarmos num vale. Ao ver a dificuldade desta secção pensei que
seria esta a secção com cabos que apareceu no Facebook da prova, uns dias antes. Já a
tentar antecipar a dificuldade maior tentei mexer-me o mais rapidamente possível
e tentar chegar ainda no lusco-fusco à base de vida. Mas as vistas dos
abastecimentos eram traiçoeiras. O que parecia ser mesmo já ali, o pior já
estava e agora era só chegar, ficava sempre umas boas horas de distância. Esta ilusão
seria outra coisa que iria dar cabo de mim bem mais à frente.
Pardelhas, 40 km, 7h12m
Pardelhas, uma aldeia com casas típicas em granito, era a primeira base de
vida. Numa casinha um pouco pequena para o efeito, lá estavam alguns atletas
que passaram por mim a desfrutar de uma boa sopa. Como a maioria dos atletas
que lá estavam não mostravam desânimo consegui levantar o espírito e ir à luta
novamente. Enquanto fui mudar de roupa alguns atletas que tinham feito a parte
da noite com mais calma e vinham atrás de mim não ficaram muito tempo e
seguiram como se fosse um abastecimento normal. Eu tenho a sensação que não
fiquei muito tempo porque comi apenas uma sopa, organizei a mochila e dei de frosques.
Não pensei nas dores no tornozelo e as dores no joelho eram inexistentes (na
minha cabeça). Devia ter ficado mais tempo, colocado uma ligadura no tornozelo
para compressão e utilizado o gelo químico que tinha na mala. Mas estava
novamente a ir à luta e a fazer contas tendo em conta o que se tinha passado no
Estrelaçor. A seguir a Pardelhas, o percurso era feito no vale sempre a subir. O
trilho era aberto mas já não conseguia correr grandes extensões. Então a ideia
era, power walking, correr até certo ponto inventado, power walking. 10 min/km
é melhor que 14 min/km. E assim fui até conseguir apanhar uns atletas. A zona
de Pena Suar e das eólicas era fria e só pensava na sorte que tínhamos das
condições meteorológicas que estavam. Porque se com aquelas condições já se
sentia algum frio, nas condições “normais” do Marão aquela zona devia ser
terrível. Numa das subidas até Montes consegui apanhar a Mariana Ballester e a Elena
Gonzaléz e tentei ir com elas. Ora ia eu à frente nas subidas ora iam elas à frente
nas descidas. A descida até Montes fazia-me lembrar uma secção dos Abutres, em
que a terra era amarela e as folhas estavam espalhadas pelo chão. A inclinação também
pode ter ajudado a lembrar-me dos Abutres... A Mariana estava a descansar numa
cadeira quando eu cheguei ao abastecimento. Quando a Elena chegou, éramos as únicas
atletas naquele abastecimento. Cheia de calor só queria mudar de camisola e comer
qualquer coisa antes dela ir embora. Queria ir com ela para aproveitar o ritmo
que ela estava a impor. Não demorou muito até ela se levantar, mas como a
localização daquele abastecimento era tão gira queria ficar mais um pouco a
aproveitar e comer. Deste abastecimento conseguia-se ver o desafio que seria o
km vertical.
De Montes até Senhora da
Serra
Fui a última a sair do abastecimento e numa secção da descida encontrei o
atleta estrangeiro que me tinha ajudado a levantar quando torci o tornozelo. Numa
dança de ultrapassagens lá fomos os dois a descer em direcção à base do km
vertical. Até chegar à base voltei a lembrar-me de outras duas
provas. Numa secção com muros, tínhamos que subir com recurso a pedras que sobressaíam dos muros, algo semelhante a uma parte do Louzan trail. Numa subida
bastante íngreme parecia ter um trilho mais aberto, sinuoso, que chegava ao
mesmo destino, logo ao lado. Fez-me lembrar a Gardunha. Apesar de estar a entrar
noutra parte difícil da prova, começava a pensar “eu já fiz isto noutras provas,
eu sei como se faz!”. Com o ânimo renovado, mas com algum cansaço alcancei
novamente a Mariana, a Elena e outros atletas que se tinham sido alcançados por
elas. O km vertical parecia não ter fim e apesar de não ser tão duro (no papel)
como o da Serra da Estrela, parecia mais difícil. Estava visivelmente cansada e
na conversa com os outros atletas acabei por ouvir aquilo que não queria (novamente)
mas que se calhar era verdade: fui demasiado rápida durante a noite. Com muito
mais experiência nestas coisas do que eu, aconselharam-me a nunca fazer uma
prova com tanto foco nas barreiras horárias. A Mariana deu-me o exemplo de uma
prova que chegou a 1 minuto de um abastecimento fechar e mesmo assim conseguiu
acabar. Sacana do senhor bruto que me tinha dito o mesmo durante a noite,
afinal se calhar tinha razão…. Durante a parte mais difícil do km vertical começámos
a dispersar e os que tinham mais experiência iam bastante avançados. Cheguei ao
abastecimento mais alto, a Senhora da Serra, 62 km, com 13h51m e os meus amigos
do km vertical já lá não estavam. As dores nos pés começavam a chatear e acho
que foi a primeira vez que meti vaselina nos pés (outra falha). A dor no
tornozelo já se tinha tornado mais um elemento da dificuldade da prova. Doía,
mas não era insuportável. A falta de comida começava a preocupar o Francisco e
deve ter sido a primeira vez que não me deixou sair de um abastecimento sem
comer algo “substancial”. Estava a comer pouco, mas também não “sentia” fome.
Acabei por me sentar e comer metade de um pão com Nutella. Quando saí ainda
conseguia ver alguns compinchas do km vertical ao longe, o que me deu forças
para voltar ao meu power walking-corrida-power walking. Tinha sido assim que tinha
conseguido apanhá-los. Mas agora íamos descer e bem. Era praticamente um km
vertical invertido…. E eu que adoro descer…
Alto da Quintela, o novelo da
ansiedade
A parte a seguir à Senhora da Serra começava num trilho aberto em volta das
eólicas, e como o sol já estava a desaparecer pelas nuvens, começava a ficar
frio. Esta seria outra zona que com outras condições meteorológicas seria muito
mais dura. Mas estava em movimento! Antes de chegar à descida consegui falar
com o meu irmão e novamente não tinha nada de bom para dizer. Sem querer, o
cansaço falou primeiro disse-lhe que já estava farta daquilo. E acho que aqui
comecei a meter a semente do cansaço que me iria trazer problemas mais à
frente. A descida era feita num trilho sinuoso, de pedra e terra e com uma
inclinação considerável. Mas como era feito na encosta da Serra, tínhamos uma
paisagem fantástica. Acho que foi a descida que mais gostei de fazer. Estava a
esforçar-me em manter um ritmo a descer e a aproveitar aquele momento e aquela
paisagem. Fogo somos mesmo pequeninos! As descidas até aquele momento tinham
sido mais acessíveis que as subidas. Só que a descida era interminável e a
preocupação em ver aquela secção acabar começava a sobrepor-se. Depois da
descida “fofinha” tínhamos ainda outra descida, pequena, mas com muita terra
solta e pouca pedra para servir de apoio. Demorei imenso tempo aqui e comecei a
ficar frustrada por não conseguir manter o ritmo inicial da descida. Comecei a
embrulhar-me na frustração e ansiedade. A verdade é que tinha na minha cabeça de
que se as coisas corressem bem, podia acabar às 21h (22h de prova). Todo o
percurso até ao km vertical estava a ir nessa direcção, apesar das
dificuldades. Mas o cansaço começava a falar mais e o foco começava a perder
força. Chega-se a um ponto nestas corridas em que o corpo é só um receptáculo
para a nossa vontade. A cabeça tem que estar no sítio certo para vencer o
cansaço e mover o corpo. A cabeça estava a embrulhar-se num sítio sem retorno.
Valentes que estão a ler isto, lembram-se de eu ter dito que as vistas dos
abastecimentos eram traiçoeiras? Ora depois desta descida difícil, estava certa
na minha cabeça de que seria só uma pequenina subida e que o abastecimento era
naquelas casas “já ali”. As casas estavam já ali.
Passa-se meia hora e as casas continuavam tão distantes quanto a primeira
vez que as vi. Uma hora. Quanto tempo passou mesmo?? Finalmente, eu e outro
atleta chegamos às casas e eu contente que podia finalmente parar de me mexer e
comer qualquer coisa (a descida foi muito longa e demorada!). Não era ali!
Ainda tinha que subir! Fogo, estão a brincar comigo?? Não quero subir!!! Nem
descer!! Quero parar e comer!! Mas não parei. Nem para me acalmar nem para
meter um gel. Comecei a criar um novelo de frustração e ansiedade para chegar
ao maldito posto. Só paro no maldito posto de abastecimento, fosga-se! É a
subir, eu gosto de subir!!! Eu gosto de subir???? Aquela subidinha das casas
até ao posto parecia ser tão longa quanto o km vertical! Já quase no final da
subida, aparece a família de um atleta francês que consegui ultrapassar a subir,
todos contentes a fazer-lhe uma festa. Estava num estado de cansaço ansiedade
tal, que naquela altura em que vi os familiares todos contentes a dar palavras
de ânimo ao atleta só me apetecia chorar por me sentir tão sozinha e
desamparada no meu sofrimento. Felizmente o abastecimento, que era também a segunda
base de vida, chegou e na altura em que estava a conter o choro e a voltar à realidade está uma menina da organização a fazer de porteira:
- Estou a fazer um controlo do equipamento. Tens que me mostrar o telefone
e a camisola de mangas compridas.
- Ok o telefone está aqui, e camisola está no saco ali na base de vida.
- Não a camisola tem que estar contigo durante toda a extensão da prova.
- Mas eu tirei a camisola na primeira base de vida e tenho agora outra aqui
no saco para vestir.
- Mas tem que estar contigo. Vais levar uma penalização de 2 horas.
- Ok, aceito o que tu dizes mas tenho que dizer que não concordo com essa
penalização.
CATRAPUMMMMM!! Explodi! Comecei a hiperventilar e a não conseguir controlar
a respiração. As lágrimas queriam sair mas eu não queria fazer figuras parvas.
Eram os olhos a ficar molhados mas eu a esforçar-me para não chorar. Ah mas
espera, figuras parvas estou eu a fazer por não conseguir respirar!!! Parecia
uma gaita de foles com o ar a sair tão rapidamente como entrava. Estava fora do
meu controlo. Na altura dizia que com 2 horas de penalização não ia conseguir
acabar, mas aquela reacção era uma resposta a toda a negatividade que estava a
acumular desde o início. A Helena e o Nelson, que estavam a dar apoio aos atletas
da nossa equipa perceberam quem eu era e vieram em meu auxílio. Como ainda não
me conheciam tiveram uma boa impressão! A atleta chorona, pensava eu, que bela primeira
impressão que estou a dar…. Sentei-me e tentei sair daquele novelo. O meu amigo
João Menezes também estava ali, mas estava à espera de boleia porque tinha
desistido depois do km vertical. Ao ver caras amigas e o pessoal da equipa
acalmou-me um pouco e as dores nos pés e tornozelo vinham à memória. Ao mesmo
tempo que falava com o João tentava comer uma massa com atum fria e tratar dos
pés. Estava uma confusão. Já sei, vou mas é telefonar ao meu irmão que ele mete-me
já no sítio outra vez! Disse-lhe que não conseguia respirar e que estava a ter
um ataque de pânico. Mas como ainda não tinha a respiração controlada, devo ter
dado a impressão que queria desistir. Foi remédio santo ouvir o meu irmão e a
minha sobrinha. Já só faltavam 30 km. Estava a ficar tarde, mas dava para
acabar. Era só continuar! Felizmente a Helena e o Nelson quando perceberam que eu
não estava sozinha foram atrás de outro atleta que estava em dificuldades. Porque
ao pé de mim era uma salganhada de telefone, pés, roupa e comida. Quando o
espírito estava pronto a mexer-se levantei-me e nem acabei o prato. Queria ir
andando! Vendo em retrospectiva toda esta prova, não só foi um novelo de
negatividade como estava a alimentar-me muito mal.
Aproveitei um atleta que estava a sair ao mesmo tempo que eu e fiquei com
ele até ao fim. Era o Mário, o primeiro elemento da minha dream team do final.



Sem comentários:
Enviar um comentário