terça-feira, 23 de abril de 2019

Ultra Trail do Marão parte II

Ok, então vamos lá continuar esta aventura.... Quando saí da segunda base de vida ainda não tinha a respiração totalmente controlada e ainda fazia sons de gaita de fole. Até este momento o Francisco esteve bastante sossegado e ao longo do dia foi só dando uns "acertos" quando achava que precisava de ajuda. Mas antes da prova sempre lhe disse: "Vai-me avisando de fazer a rotina dos pés e da comida. E sempre que me vires nos postos de abastecimento a ir abaixo arrebita tu também para que eu fique contagiada!". E pronto, fui eu a ir abaixo e ele a surgir! Só não me obrigou a comer mais porque queria que eu fosse com o Mário, e quando viu que já estava ao telefone durante demasiado tempo com o meu irmão agarrou-me no telemóvel e desligou. E obrigou-me a ir com o Mário! Eu estava exausta e cheia de dores nos pés e no tornozelo. Mas algo acontece comigo nestas provas longas. O peso da distância, da altimetria e do próprio evento faz com que tenha poucos pensamentos em desistir. Apesar de estar exausta, física e mentalmente, nunca pensei que ia ficar por ali. Se alguém ia dizer para parar não iria ser eu. Queria ir ao meu ritmo, mas se tivesse ido sozinha muito provavelmente tinha sido barrada nos últimos postos de abastecimento (e alguns atletas, poucos, já tinham sido barrados em postos anteriores).

Alto da Quintela até Broscas (86 km)
Foi o melhor que me podia ter acontecido ter ido com o Mário. A partir daquele momento foi sempre a tentar ajudar-me. Eu pouco conseguia correr, e o meu power walking já tinha perdido todo o power e já era mais walking dead. Mas mesmo assim, para me motivar o Mário fazia contas ao nosso ritmo e ao tempo que podíamos demorar a chegar ao próximo abastecimento. "Temos 1h30 para fazer 9 km, se formos a este ritmo conseguimos". Nesta altura já conseguia fazer uns saltinhos que se assemelhavam a passo de corrida e lá fomos nós. Os trilhos eram bastante corríveis e fomos apanhando alguns atletas franceses pelo caminho. O Mário estava preocupado com a Elena, a atleta com quem eu também tinha corrido uns kms há umas horas atrás (aliás, tínhamos estado todos juntos no km vertical!). Eram da mesma equipa, e como a pior parte de todo o percurso do Marão ainda estava para vir e seria a descer, ele estava com receio que ela não conseguisse fazer a descida sozinha (spoiler alert: não só conseguiu fazer a descida sozinha como nunca a conseguimos apanhar.... grande atleta a Elena!). Eu logo ali aproveitei-me da boa vontade do Mário e perguntei-lhe directamente sem rodeios se ele podia ir comigo e ajudar-me na parte técnica. Se tivesse sido noutra altura nunca teria lata para fazer tal proposta, mas o instinto de sobrevivência e o cansaço falaram mais alto. Já estava por tudo! Ao chegarmos à subida para Broscas o Francisco acompanhou-me e o Mário foi andando em direcção ao abastecimento, uma vez que já tinha companhia. O Francisco bem tentava puxar por mim para que corresse até ao abastecimento, mas preferia gastar a minha energia a resmungar do que tentar correr numa subida.

Broscas até Simão Gouveia, a dream team toda composta! (94 km)
Ficámos pouco tempo no abastecimento, e se a memória não me falha, o abastecimento também não tinha grande coisa, talvez porque estava muito perto da base de vida anterior. Antes de começarmos os trilhos corríveis fomos brindados com mais uma subida (!!) que apesar de não conseguir correr consegui fazer com ânimo, sempre com o Mário a puxar. Tinha tomado um shot energy da Gold Nutrition e não sei se era efeito placebo ou se era realmente o que tinha bebido a fazer efeito. Pelo caminho apanhámos os outros dois elementos da minha dream team, o Bruno e o Arnaud. Não percebi se o Arnaud era conhecido dos outros dois, mas o Bruno e o Mário eram amigos e companheiros de equipa. O Sol começava a descer e ainda andámos num pequeno sobe e desce até chegarmos ao trilho da cascata. Não sei se foi por estarmos em grupo, mas estava a ficar mais descontraída e ia conseguindo andar depressa e de vez em quando correr! Estava a ficar animada mas preocupada com o tempo que tínhamos para acabar a prova. Afinal eu estava ali por mim, mas também tinha um outro objectivo sempre em mente! Ora a equipa feminina do Arrábida Trail team era a única a fazer a prova dos 105 km. Se eu acabasse, a Sofia Roquete, a Ana Lúcia e eu íamos fazer história. Seríamos a primeira equipa feminina a vencer o campeonato nacional ultra trail endurance! Se não fosse a equipa eu nunca teria sequer pensado em fazer esta prova. Estava ali por eles também! E decidi partilhar essa informação com o grupo (o meu eu cansado mesmo cansado é bastante vocal...). Ora parece que agora tínhamos um objectivo em comum! Eu acabar a prova e eles ajudarem-me a acabar! Já não se encontram pessoas assim! Eles estavam a abdicar da sua prestação pessoal para me ajudar. Parecia coisa de filme! Quando acabasse ia pagar uma cervejada aquela malta! Quando começamos a entrar na descida complicada já estava na fase descendente do meu ânimo (é um sobe e desce constante!)... tentámos ali organizar uma forma para que eu nunca estivesse sozinha, ora ia o Mário sempre à frente e o Arnaud e o Bruno vinham atrás. Mas a descida era mesmo técnica, e era coisa estilo Abutres. Bastante inclinada, pedra, terra molhada e por vezes cabos para ajudar na descida. E ainda por cima aqui já estava noite cerrada. Eu desanimada e cansada apoiava-me bastante (demasiado até!) nos bastões. O Bruno que vinha imediatamente atrás de mim, lá ia dando umas palavras de frustração e alguns conselhos. Tentar apoiar-me mais nos pés e utilizar partes dos trilhos como apoio. Por vezes tinham que ser eles a agarrar-me nos bastões para conseguir fazer troços da descida. Aquele tipo de trilho era o meu pior inimigo e ainda por cima cansada. Num estado normal, o tico e o teco não computam bem a complexidade do terreno (quem te manda treinar sempre no Monsanto...), muito mais cansada e cheia de dores nos pés. Era certamente a parte mais complicada do Ultra Trail do Marão. De dia devia ser uma paisagem brutal, no meio das árvores e rochas e com cascatas ao lado. Mas naquele momento já estava a começar a ficar farta. O trilho estava dividido em duas partes. A primeira parte fiz com a minha dream team, mas na segunda parte estavam elementos da organização, nas partes onde estavam colocados os cabos para ajudar os atletas mais nabos, que naquela altura era só eu. O meu eu cansaço novamente a fazer das suas ia deitando para o ar que não conseguia fazer aquilo. Felizmente os elementos da organização eram tipo SWAT team, e pegavam em mim e desciam os cabos comigo. Estão a ver aqueles cachorrinhos a ganir, quando vão levar a pica ao veterinário? Não param de ganir, mas deixam que se lhes faça tudo e ficam despachadinhos? Era eu. E no meio de tanta confusão aparece outro elemento da dream team, o Francisco. Estava a ser um verdadeiro ponto de apoio, a subir e descer a parte mais complicada da prova e nem sequer tinha ténis ou roupa para isso. O resto do pessoal aproveitou para fazerem a descida mais rapidamente e pararem no posto de abastecimento. O Francisco ia fazer o resto da descida comigo, mas ele estava demasiado animado para o meu gosto e eu queria ir com os outros elementos do grupo. Então novamente, cadelinha abandonada, deitava para o ar "amigos! não me deixem sozinha! os meus amigos estão a ir tão rápido!!". Que vergonha!! Bolas, eu cansado, não podias ser mais rija.....

Simão Gouveia até Amarante 105 km
Cheguei ao último abastecimento com 10 minutos de sobra até à linha de corte e os meus amigos ainda estavam lá à minha espera. Sempre lhes disse que assim que estivéssemos despachado a pior parte, eles podiam ir à vontade e nem precisavam de olhar para trás. Mas porreiros como eles eram, queriam que eu fosse com eles. Íamos acabar juntos e iam ajudar-me a tornar a equipa feminina campeã nacional! Já tínhamos 22h, mas agora só faltava cerca de 11 km. Estava feito! Mesmo a andar conseguia terminar dentro do limite de tempo. Amarante estava naquele "já ali" demorado. Mas desta vez não estava sozinha e estava com sentimento de objectivo cumprido! A frustração de não conseguir atingir certos objectivos, a negatividade da preocupação e ansiedade. Tudo tinha ido borda fora. Estava satisfeita e feliz por ter tido a oportunidade de fazer uma prova brutal em todos os aspectos. Apesar de ter estado bastante preocupada durante a maior parte da prova e ter feito 70 km com dores por uma estupidez, adorei ter tido a oportunidade de subir e descer e conhecer o Marão pelos meus próprios pés. Pelo caminho íamos apanhando mais atletas franceses e até consegui meter conversa com um deles. Dizia que a prova tinha sido muito difícil, das mais difíceis que tinha feito ao momento! E que estava a gostar de ter companhia na parte final da prova, porque tinha andado muito sozinho. Antes de chegarmos a Amarante subíamos e subíamos e de vez em quando a frustração de querer acabar aquele troço aparecia mas já não interessava. A última parte da prova era num trilho perto do Rio Tâmega que de dia devia ter sido espetacular. Mas naquela altura estava estava a saber que nem ginjas! O Bruno continuava a tentar animar-me e a dizer que devia ir andando e correr aquele troço. Mas eu não conseguia correr e preferia ir com eles.  A namorada do Arnaud apanhou-o neste trilho e ficaram mais para trás. Em jeito caminhada, começamos a ver o pórtico da chegada e aquela excitação da chegada fez com que tentasse correr os últimos metros. Estava feita! Provas de 3 dígitos 0 - Andreia 3! Tempo final 24h02m. Às 23h ainda tínhamos o animador da prova à nossa espera! Os meus amigos não quiseram a cerveja no final, mas tenho a certeza que não será a última vez que os vou ver! 



No final também não consegui comer nada. Só uma sopa e procurar o solo duro para descansar o corpo. As dores musculares são tantas que na noite a seguir a uma prova destas pouco durmo. Banho? Não houve....... desculpem se estou a ferir susceptibilidades, mas o cansaço era tanto e a roupa estava tão colada ao corpo que nem me importei de me meter no saco cama e tratar do banho na manhã seguinte....

Estas provas longas exigem imenso de nós. E para mim, estou sempre à espera que haja algum tipo de sacrifício. Desta vez foi uma lesão no tornozelo, que está a demorar quase um mês para que recupere. Mas o objectivo era esta prova. Treinei para esta prova. Se tivesse desistido ao primeiro desconforto, todo o trabalho não seria aproveitado porque a prova seguinte seria tarde demais. Mas a verdade é que ainda estou para perceber se fui uma miúda rija ou uma miúda estúpida. Mas nem sempre é assim. O Estrelaçor correu lindamente, e não tive qualquer tipo de problema, mas cada prova é uma prova. Cada prova é um puzzle em que as peças têm de estar lá todas, seja no treino, na alimentação, na parte mental, entre outras. E depois cabe-nos a nós tentar montar esse puzzle. Provavelmente na altura da montagem do puzzle as coisas não correm bem, ou faltam peças, mas aí está um pouco do fascínio destas provas. Como é que nos comportamos quando as coisas não correm como queremos ou pensamos? Não dá para fugir ou pensar no problema mais tarde... Quão importante são estas provas para nós? Bem, agora é recuperar porque o próximo puzzle é já em Junho e vão ser 3 dígitos mais uma maratona! Caminhos do Tejo, aqui vou eu! Ah mas espera.... tenho o meu némesis para acabar antes disso.... Ultra Trilhos dos Abutres, aqui vou eu.......????

Sem comentários:

Enviar um comentário