sexta-feira, 15 de junho de 2018

UTSM 2018 - Os meus primeiros 100 km (parte 4)

Olá malta! Pensavam que me tinha esquecido ou desistido da minha última parte do UTSM? Naaah, até escrever a experiência é uma ultra maratona! A verdade é que não sabia muito bem como acabar este meu relato. Queria poder dizer quanto tempo demorei a recuperar desta aventura, mas não vou conseguir porque ainda não tenho o joelho e o peito do pé (começo a achar que são os ligamentos) completamente recuperados. Queria dar uma de Gustavo Santos no final e dizer que a experiência das corridas em trilhos é transcendental, e que nos tornamos melhores pessoas e peace and love, mas não posso dizer que é para todos e que todos têm os mesmos resultados. Bem mas vamos então acabar o relato da prova!

Já a andar depois do posto de abastecimento em Reguengo, o meu irmão explicou-me o resto do percurso para que conseguisse aproveitar e tentar ganhar algum tempo. O percurso era bastante acessível, já só havia uma última subida em estrada e as descidas não eram íngremes, mas não conseguia correr. Tentei ao máximo ir sempre com a Filomena e com o senhor que ia com ela. Por vezes ia eu à frente, por vezes iam eles. A segunda noite já estava a começar e toca de ligar o frontal. Já só faltavam 7 km! As pernas mexiam-se porque tinha que acabar, mas aquele ânimo que me fazia continuar e aguentar a dor já se estava a esfumar. Estava em modo automático já sem grande emoção, tanto positiva como negativa. Só se pára na meta? Então quando lá chegar paro. Quando estava na última subida a Tuxa, a minha treinadora, envia-me uma sms de apoio, e foi como ver uma luzinha ao fim do túnel. Arrebitei um pouco, mas não conseguia aumentar o ritmo. 

A Filomena e o outro senhor tinham ficado para trás e estava a andar no meio dos trilhos com habitações já à vista. No meio da escuridão começo a ver uns reflectores que pareciam desenhar um smilley. A minha primeira reacção não foi pensar de que poderiam representar um outro atleta (porque pensei que seriamos já os últimos). A minha primeira reacção foi pensar de que o cansaço já se estava a reflectir - será que já estou a alucinar?? A segunda reacção foi, epá, o meu irmão disse que íamos passar por uns bairros com aspecto de bairros sociais, se calhar é algum mitra aqui no meio do mato.... Durante alguns metros ficámos os dois à mesma distância, e eu ali a viajar na maionese a pensar o que seria aquilo, mas quando o consegui apanhar lá reparei que era outro atleta! Nem me passou pela cabeça ser outro atleta! Quando trocámos palavras ele disse que estava a tentar aproveitar a luz do meu frontal porque o dele estava com pouca intensidade. Estava no mesmo estado anímico que eu, mas para tentar animá-lo tentei descrever o tipo de percurso que faltava. No ano passado, na minha prova dos 50 km, tinha feito os últimos kms a "voar" (para mim), mas desta vez parecia que nunca mais conseguia chegar à maldita pista. Eventualmente a Filomena e o senhor apanharam-me e o rapaz que não tinha frontal ficou para trás. Mas já estávamos perto das luzes da cidade. No ano passado a descida até à pista era mais próxima do que a deste ano. E deve ter sido a última frustração (leve porque já não tinha grande capacidade de resposta) que tive. Já em direcção ao kartódromo, que estava ao lado da pista, o Francisco apanhou-me e acompanhou-me. Quando entrei na pista a minha segunda equipa de apoio (irmão, cunhada e sobrinha) já estava à minha espera, mas percorri a pista sozinha. A Filomena e o senhor também tinham pessoas à espera deles e que os acompanharam com cânticos até ao final. Eu ia mais atrás, mas gostei que tivesse ido sozinha. Aquela era a minha prova, ia ser eu a acabá-la. No ano passado tive a companhia de uma menina, a Bia, e fomos as duas a correr alegremente até à meta (se tiverem curiosidade o vídeo da minha chegada está mais abaixo, num outro relato). Este ano ia sozinha a andar.

 


No final a capacidade emocional que andava adormecida nos 7 km finais acordou, e não consegui conter. Comecei a chorar. Todo o esforço e sacrifício na preparação, treino e prova começaram a borbulhar na memória. O apoio da minha família e das pessoas que nos viam. O pessoal da organização da prova sempre com um sorriso e carinho. A minha treinadora a acompanhar-me. Tudo encheu-me o coração e algumas lágrimas podiam ser de sofrimento mas muitas mais eram de alegria. Só eu sei o que passei para chegar ali. Acabei os 101 km com 22h55m48s. Fiquei um pouco desiludida, mas porra tinha acabado a minha primeira prova de 100 km! Fui constipada e com dificuldades em respirar, lesionei-me e andei mais do que queria, mas cheguei ao fim! Tentei manter a calma o máximo que consegui e foquei-me no objectivo. E o objectivo era simplesmente acabar! Provar que conseguia conquistar esta montanha! Há uns anos atrás as minhas montanhas eram os 10 km, 15 km, depois a meia maratona, e a maratona. E agora já posso juntar mais uma montanha! E todas elas na altura pareciam-me impossíveis. A sensação de estabelecer um objectivo "impossível", trabalhar para ele e depois consegui-lo é do melhor que se pode ter! Se há coisa que as corridas me têm ensinado é persistência e resiliência. Mas sem querer, já ia entrar nas minhas cenas à Gustavo Santos e se calhar é melhor ficar por aqui ;)

Fazer 100 km não é pêra doce. Não se vai lá só com "treino" e ver o que dá na altura. A cabeça tem que lá estar primeiro do que o corpo e temos que querer. E querer muito. Mas também não se vai lá só com força de vontade. Exige muito treino e preparação a diversos níveis. Há pessoal que tem mais facilidade do que outros, mas independentemente da velocidade, todos temos que trabalhar. Às vezes vejo na net pessoal que critica os ultra maratonistas porque dizem que não exige talento. Cada vez mais acho que estão totalmente errados. É necessário estar sempre com a mente presente e em constante avaliação das condições do corpo e do ambiente. E isso é uma das coisas que me fascina nesta distância e neste tipo de provas (corridas em trilhos). Não é correr só por correr.

Tive imensa sorte com as pessoas que estiveram comigo nesta aventura e fica aqui o meu agradecimento! Não vou conseguir agradecer a todos individualmente, mas fica o meu muito obrigada a todos os que interagiram comigo por causa desta prova.

O Francisco, meu namorado, não é de todo apreciador destas coisas, mas até ele se envolveu e andou atrás de mim serra a dentro, serra a fora durante todo o dia e noite (Parece que gostou tanto que quer acompanhar-me nos próximos 100 km, no Estrelaçor.....)

A família Santiago/Nobre pela força na última parte da prova.

A minha treinadora Tuxa Negri, pelas tareias no treino e apoio. Treinos durinhos mas que fizeram toda a diferença! Só com algum sofrimento é que se melhora.

A todo o pessoal que me ia enviando mensagens de apoio. Ler as vossas mensagens era como beber um shot de cafeína.


A recordação que está na minha parede.


Infelizmente estou a demorar a recuperar mais do que queria, mas a próxima aventura já está marcada. Até já Estrelaçor 100 km....




sexta-feira, 25 de maio de 2018

UTSM 2018 - Os meus primeiros 100 km (parte 3)

O peito do meu pé estava pedra e com algumas feridas. Já não tinha grande mobilidade no pé para conseguir correr e todos os passos eram bastante dolorosos. Por isso a descida até ao posto de abastecimento de São Mamede foi feito com muito custo. Estava num transe esquisito. Tinha dores, mas a cabeça não estava sequer a pensar em desistir. Estava numa missão em busca dos postos de abastecimento e depois de São Mamede só faltavam dois (muito melhor estratégia do que pensar que faltavam ~30 km).

Na descida para o PAC de São Mamede. Já toda torcida por causa das dores.

Chegada ao posto, a ~71 km com 14h20, vejo o Francisco e novamente o Eduardo, com um ar animado, a perguntar se estava bem. Na altura estava tão animada por vê-lo que momentaneamente as dores foram-se e até aligeirei a situação em que estava. "Ah tenho algumas dores no pé, mas isto faz-se". A Carla foi uma máquina em despachar-se a comer. Ainda eu estava a preparar-me para me sentar e ela já estava pronta para sair. Quando me dirijo para as cadeiras para me sentar e meter o fisiocrem no pé vejo a Gislaine (a rapariga que esteve comigo para os lados do Marvão) sentada, quase a dormir. Estava com um ar muito abatido e tinha acabado de desistir. Na altura só pensei "epá não podes estar pior do que eu, embora lá dar força à rapariga!". Lá consegui convencê-la a vir comigo e com a Carla, dizendo que nós também não estávamos a fazer grandes ritmos e que ela conseguia acompanhar-nos. Disse-lhe para esquecer o tempo, porque o mais importante nesta primeira tentativa dos 100 km seria acabar. Comemos qualquer coisa e a Carla ainda estava à nossa espera. Em São Julião tinha saído à pressa e não tinha comido bem nem enchido a mala de geis. Neste posto de abastecimento aconteceu o mesmo porque queria ir com elas. Saímos as três, e a Gislaine ainda estava com medo de que ficasse sozinha. Fez-me prometer que ficava com ela se ela andasse devagarinho e na altura até lancei "epah da maneira que eu estou vocês é que ainda vão ter que esperar por mim nas descidas". E não foi preciso muito para que isso acontecesse. Ainda estava eu a comer as gomas que tinha no bolso da mochila e já elas estavam a afastar-se. 

De São Mamede ao próximo abastecimento, Alegrete, o caminho era feito novamente quase todo a descer. O fisiocrem já não tinha qualquer efeito e o pé não tinha salvação. Para além disso, o joelho esquerdo não tinha qualquer mobilidade e força e todas as descidas com pedra tinham de ser feitas com o rabinho no chão. Correr nesta altura era muito doloroso por isso o passo era bastante lento.

Esta nem é das fotos piores, mas dá para ter uma ideia do que tinha que fazer....


Perdi completamente as minhas colegas e passei grande parte do tempo até ao abastecimento a pensar o que podia fazer para reduzir as dores. Continuava a não ter pensamentos em desistir. Chegada a Alegrete, com 16h e qualquer coisa, continuava com uma margem confortável para não ser barrada. Vinha um pouco irritada por não conseguir sequer ter as minhas colegas à vista. Quando lá cheguei fiz uma coisa que imediatamente depois me arrependi. Quando a Carla pergunta por um colega dela que supostamente vinha atrás de mim, respondo-lhe "o teu colega? Então e eu? Vocês nem sequer me deram possibilidade de vos apanhar!". Ela responde "ah mas nós estávamos a ver-te." e eu imediatamente respondo "olha mas eu não conseguia ver-vos". Ora a corrida não é um desporto colectivo. Podemos ir com amigos e familiares, mas cada um sente a corrida à sua maneira. O que sentimos e retiramos da corrida só depende de nós. Se elas estavam a conseguir ganhar ânimo e correr, quem era eu para exigir que elas se adaptassem ao meu sofrimento? Cada um tem de fazer a sua corrida.

O Francisco coitadinho já não sabia o que fazer e ficou do lado de fora da tenda do abastecimento e ao ver a minha frustração pediu para que me dessem o fisiocrem. Aquilo já não tinha efeito nenhum e quase não aceitei o creme da Gislaine porque aquilo não servia de nada. Antes de comer pedi para que me pusessem um adesivo no peito do pé para tapar as feridas e criar uma camada entre o pé e o maldito ténis.

O meu plano de nutrição tinha ido por água abaixo há muito tempo e naquela altura já não sabia o que comer. Na altura estava outra atleta, a Filomena Cordeiro, que era da zona e que ao longo da prova ia vendo aqui e ali. Apesar de não querer ter mais companhia, aproveitei a sua saída para ir atrás dela para não ficar em "terra de ninguém" até ao último abastecimento. Comi melancia e tomate e vamos embora! A Filomena tinha feito a prova no ano passado e conhecia o percurso. As descrições que ela fazia do que vinha ali dava para antecipar as dificuldades. Estávamos as duas a fazer um passinho lento mas estávamos com esperança de chegar ao fim por volta das 21h. Só faltava mais um posto, Reguengo, mas o cansaço e as dores já não deixavam correr muito. Acho que a partir deste abastecimento devo ter feito o resto da prova quase sempre a andar. Mas felizmente tinha a Filomena e mais uns poucos atletas. De Alegrete a Reguengo a distância era grande, 14 km, e haviam descidas técnicas, inclinadas e com pedra, e subidas. Estava a ser difícil fazer aquele troço depois de tanto cansaço, mas estava numa missão. O meu irmão, que já tinha acabado a prova há muito tempo, telefona-me a perguntar onde andava. Na altura já tinha feito umas subidas e descidas, o que levou a que ele pensasse que já estaria quase em Reguengo. O meu relógio já ia na terceira fase de bateria (morrer e carregar), por isso os kms já não faziam qualquer sentido. 

A organização tinha colocado um posto intermédio entre Alegrete e Reguengo, mesmo antes das duas grandes subidas daquele "entre-PAC". O meu irmão telefona-me novamente e digo-lhe que estava no posto intermédio. Alarmou-me logo para a grande subida que era já ali e mais o corta-fogo que era mais à frente. Quando ele me disse que iam esperar por mim no último posto, fiquei animada mas já sabia que ia demorar porque não iria conseguir correr.


Apesar de subidas íngremes naquela altura serem um pouco malvadas, não estava frustrada por isso. Estava era a perder o ânimo por não conseguir correr. Na altura só pensava "ok, aproveita as macacadas finais para "recuperar", quando der para correr logo se vê!". A última "grande" subida era feita num corta-fogo e tinha o nome de "Besta". Era realmente bastante longa e inclinada mas mesmo assim no meu passinho conseguia acompanhar os atletas que também lá estavam (obrigada pela tareia dos treinos de rampas Tuxa!). Depois da besta quem conseguisse correr tinha ali um troço a descer corrível que dava para aproveitar. E até mesmo o percurso final até ao abastecimento fazia-se bem. Não consegui aproveitar e fui ultrapassada por muitos atletas. Noutras distâncias e provas acho que tinha me afectado mais e apesar de no Marvão a mesma situação me ter dado um "boost" para ir à luta, já não conseguia fazer grande coisa. "Olha atletas a correr... como é que eles conseguem?"... 

Cheguei a Reguengo, ~94 km com 20h30m, que correspondia ao limite superior do tempo que queria ter feito na totalidade. O meu irmão, a Cátia, a minha sobrinha e o Francisco, todos estavam lá e quando os ouvi a puxar por mim até tentei correr até eles. Bebi chá e comi algumas coisas disponíveis mas não fiquei muito tempo porque a Filomena estava prestes a sair. Estava a aproveitar-me do andamento que ela tinha para não ficar perdida. 

A minha grande claque no final e a Filomena e o seu marido.




quinta-feira, 24 de maio de 2018

UTSM 2018 - Os meus primeiros 100 km (parte 2)

O dia estava a ficar bonito, sem chuva à vista. Depois de Porto de Espada, meti os phones e começou a tocar AC/DC. Parece que tinha acordado naquele momento! Tinha uma subida mas que não era desanimadora porque ia dar a uma grande vista. Estava com tanto ânimo que não consegui evitar em tirar a minha única foto da prova. Do sítio onde estava, conseguia ver no topo da Serra de São Mamede as míticas antenas, que correspondiam aos ~68 km. Na altura só pensava "venham elas!". Mal sabia eu o que iria encontrar e de que maneira iria estar.


De Porto de Espada até ao próximo abastecimento, o caminho era feito maioritariamente a descer. Como estávamos bem no topo da Serra tínhamos paisagens fantásticas só que não faço muito bem descidas e já estava  perder o ânimo que tinha ganho. Tentava compensar o meu receio de cair com jeitos que ia dando ao pé. Ora os Hoka One One, que eram os ténis que tinha, são espectaculares mas só na sola. Podem levar montes de porrada e são óptimos para lama (agarram tudo). Só que a parte de cima é bastante fraca. Não só o tecido não dura nada (já tenho montes de buracos), como o desenho do pé não é o melhor para mim. A parte superior fica numa zona do meu peito do pé que passado algum tempo faz-me ferida. A língua dos ténis também é muito pequena e tinha que estar constantemente a puxá-la. Já estavam a começar a fazer moça aos meus pés mas nada que não conseguisse suportar.

Uma das descidas nesta parte do percurso era feita num corta-fogo que tinha uma inclinação brutal. Uns dias antes, a organização tinha feito um vídeo no local mas não me parecia tão mau. A minha salvação naquela descida foi a Lina Mateus, que conheci ali. Ao ver a minha pandice a descer emprestou-me um dos seus bastões. Não tinha levado os meus porque no único treino que tentei fazer com eles as partes mais pequenas não ficavam presas (é o que dá comprar os mais baratos da decathlon! quem me manda ser pobre....). E como não queria estar a pensar em perder pedaços de bastões decidi não levá-los. Grande Lina, ufas! Se antes do UTSM pensava que os bastões eram um empecilho, agora acho que não faz mal nenhum levá-los.

Ainda com o bastão da Lina numa descida mais agradável.

Cheguei a São Julião ~57 km, que também tinha um tempo limite oficial e de 14h, com 10h10m. Estava com uma margem confortável mas estava mas abatida por causa das descidas. O pé já me estava a chatear, a perna esquerda começava a ter algumas dores e o meu plano de nutrição começava a ir por água abaixo. Entre Porto de Espada e São Julião pouco comi, porque a comida estava toda na parte detrás da mochila, e começava a ignorar o despertador para comer. Quando cheguei a São Julião nem sabia o que comer. Neste posto tínhamos a possibilidade de ter uma mochila ou saco com coisas que precisássemos que entregámos antes da prova. Tinha na mochila uma tshirt, boné, ténis e meias novas, protector solar e gel para as assaduras e montes de geis. Depois de ter ido à WC (novamente, foi a primeira coisa que fiz!), sentei-me e senti-me um bocado desamparada, sem saber o que fazer. Tinha ao meu lado um senhor que também estava com um ar abatido e que parecia mais que ia desistir. Do meu lado do posto, aquilo parecia um cenário de guerra. O Francisco estava comigo e conforme ia falando com ele ia me apercebendo que estava a fazer a minha voz fininha de coitadinha. "Opah, estou com tanto medo de ficar aqui nos montes até à noite. Isto agora é a parte difícil e já me começa a doer a perna.... tenho o pé em farrapos" - eu a dizer isto com voz fininha e o senhor de cabeça baixa a ouvir.... Conforme ia falando fez-se ali um clique, levantei-me e fui comer a sopa que estava disponível. Não podia entrar no "loop da coitadinha"! Não tinha vontade nenhuma em pensar em desistir. Tinha que ir ver a pior parte do UTSM em pessoa! Meto creme no peito para o soutien não fazer ferida, troco de tshirt, ponho creme frio no peito do pé e na perna e toca a sair! Tinha que sair dali por causa da minha cabeça, mas a verdade é que saí depressa demais. Passei muito tempo a "chorar" quando o que devia ter feito era ter mudado de meias/ténis e ter posto vaselina nos pés, abastecido a mala com geis e ter enfiado no bucho algo mais do que apenas a sopa. Vá lá ainda tive discernimento para encher os flasks de água. 

Ao sair do posto vejo três outros atletas dos Évora Night Runners e tento-me colar a eles. Do posto de abastecimento até a uma das subidas difíceis, o trajecto era feito perto de uma ribeira que tínhamos que estar constantemente a atravessar. Ora vais para uma margem, molhas o pé, corres uns metros, voltas para a outra margem, molhas o pé outra vez, mudas de margem outra vez.... nas poucas partes que dava para correr não reparei num tronco que estava à frente e dei uma cabeçada valente que estava a precisar. Acorda rapariga! A parte de atravessar a ribeira estava a ficar irritante... mas ainda deu para fazer boa cara para a fotografia.

Fotografia de Ivo Baptista


Dos 3 corredores do Évora Night Runners dois deles continuaram a bom passo e comigo ficou a Carla Cristina. Continuámos as duas e apanhámos pelo caminho o Miguel Baptista e a Natasha Planas, que também conhecia dos treinos do somais1km. O Miguel já tinha andado por ali no ano passado e sabia o que nos esperava. Quando uma das subidas macacas ia começar avisou-nos logo. Para mim foi a pior subida de toda a prova. Não só tinha uma inclinação descomunal, como tinha terra seca e o pé por vezes escorregava, era toda a descoberto sem grande vegetação e tinha muitos poucos pontos de apoio. Qualquer deslize ou queda ali seria muito perigoso. Não havia margem para viajar na maionese ou adormecer pelo caminho (a subida era um pouco longa). Nada de phones e toca a subir. A minha sorte era que havia um tubo com água que estava no meio da subida que dava para agarrar e dar algum impulso. Este percurso na Serra de São Mamede tinha maior altimetria e como já íamos com muitos kms e horas no corpo notava-se que estávamos todos a penar. A Carla era a que verbalizava a frustração com maior frequência e estava decidida que estes 100 km iriam ser os primeiros e os últimos. 

Uma das coisas que mais gosto nas provas longas é de socializar. Normalmente no dia-a-dia não sou muito sociável, mas nas corridas porque estou mais descontraída, solto-me mais. Parece que eu e a Carla tínhamos formado ali uma equipa e estávamos as duas decididas a acabar juntas. Ela fazia as descidas mais rapidamente que eu e eu fazia as subidas. Como estávamos sempre mais ou menos juntas e estávamos as duas a sofrer para chegar às míticas antenas, pensámos em continuar as duas. Apesar de estar a ficar com bolhas nos pés e ter a perna esquerda desfeita, ainda tinha alguma força para continuar a correr num passinho lento. A Carla estava mais em baixo, frustrada por não chegarmos às malditas antenas. Eu adaptei o meu passo ao dela. Quando lá chegámos estava um atleta deitado no chão, prestes a levar soro dos bombeiros. A Carla quis parar para tratar das mãos inchadas. Na altura estava a gostar de ter companhia e poder falar em vez de estar sempre a ouvir as mesmas músicas. Mas fiz mal, não devia ter parado. Devia ter seguido e feito a minha prova. Até porque mais à frente ela fez-me o mesmo e fez muito bem! Enquanto a Carla tratava das mãos, uma voluntária dizia-nos: o posto de abastecimento é daqui a 1 km é já ali atrás daquele monte! Eu pelas minhas contas sabia que faltavam ainda 4 km. Mas aquelas palavras deram-nos a força que precisávamos para ir a correr serra abaixo.

A  Carla e eu depois de termos chegado às antenas. Fotografia de Ivo Baptista.


terça-feira, 22 de maio de 2018

UTSM 2018 - Os meus primeiros 100 km (parte 1)

Nem sei bem como começar este meu relato porque há tanta coisa por onde podia começar. Fazer uma prova de 100 km exige muita preparação. Eu tenho sempre imenso respeito pelas provas e/ou distâncias que me comprometo em fazer. E sempre pensei que me preparava bem para as provas, até ter feito o UTSM. Nunca pensei em tanta coisa para conseguir realizar uma prova. Para além de tentar seguir o plano de treinos da minha super treinadora Tuxa Negri, estudei o percurso, preparei a minha comida, tive atenção ao equipamento que ia usar. Desta vez até iria ter a minha "equipa de apoio", constituída pelo meu namorado. O coitadinho deve ter percebido que desta vez a coisa era séria e aceitou acompanhar-me em quase todos os postos de abastecimento. Só para ter uma cara familiar para me dar alguma força. Na semana anterior à prova tentei mentalizar-me de que ia sofrer. Parece parvo, mas acho que foi uma preparação necessária. Às vezes desisto de provas porque acho que não estou em condições e tenho que ser realista mas outras vezes acho que é mais a cabeça que se mete em embrulhadas e não consigo sair do "loop da coitadinha". 

Uns dias antes da prova começava a ter razões para me fazer de coitadinha. Os meus joelhos nunca ficaram a 100% depois da Gardunha (principalmente o esquerdo) e estava a ficar constipada, com dores de garganta e dificuldades em respirar. Apesar das condições serem as mais indicadas para começar o "loop da coitadinha" antes mesmo da prova começar, não estava para essas coisas. A cabeça estava feita. Ia sofrer e se isso significasse começar a sofrer antes da prova, que assim fosse. Estava em paz com a minha decisão e não houve uma única incerteza de que não ia acabar a prova.

Sexta-feira chega e lá vamos nós. As previsões meteorológicas para Portalegre não eram as melhores. Se no ano passado estava um sol e calor brutal, este ano iríamos ser brindados com alguma chuva forte e possíveis trovoadas no sábado. Na viagem para Portalegre apanhámos com muita chuva, mas novamente não era algo que me estava a preocupar. Era só mais uma coisa diferente que ia acontecer (siga!). Perto das 23h começámos a ir para o estádio e comecei a sentir um orgulho imenso em finalmente estar do outro lado (no ano passado fiz os 50 km). Finalmente tinha chegado a minha altura de ir à luta! Quando deram o sinal da partida e tivemos que atravessar a imensidão de gente a apoiar-nos tive que conter as lágrimas. Apesar de saber que o que vinha ali não ia ser pêra doce estava genuinamente feliz por estar ali. Agora é que ia pôr à prova toda a minha preparação e ver com quantos paus se fazia uma canoa.



Sendo a minha primeira vez nestas distâncias não sabia muito bem como abordar o início da prova. Os primeiros kms eram a subir mas relativamente fáceis por serem mais urbanos. Como sentia-me bem decidi deixar-me ir, não pensando se seria melhor conservar as pernas e ir a andar. Felizmente encontrei um amigo do Benfica em Forma, o Paulo Gomes, que me deu conselhos valiosos. Estava a ir muito depressa e a ficar com a respiração descontrolada. Com isso em mente pensei em abrandar mas sempre a tentar ir num ritmo a correr. Tentei ficar o mínimo possível no primeiro abastecimento, no Centro Vicentino da Serra, porque ia ter com o Francisco (o meu namorado), que estava à espera no próximo abastecimento. Felizmente os trilhos não eram muito técnicos e os treinos nocturnos com o pessoal do somais1km tinham-me ajudado bastante a ficar mais confortável em correr à noite. Apesar de não haver grande dificuldade, apenas umas pedras aqui e ali, a água começava a aparecer. Não demorou muito até ter os pés molhados. Mas era mais uma coisa que tinha que me habituar porque a organização dizia que iríamos molhar os pés umas quantas vezes.

No guia do acompanhante a organização tinha estabelecido tempos "limite" aconselhados, talvez mais para o público, para cada posto de abastecimento. Cheguei ao segundo abastecimento, Carreiras, mesmo no final do tempo limite aconselhado para este abastecimento. Estava a começar a ficar preocupada em não conseguir chegar ao Marvão antes das 9h e por isso também tentei ficar pouco tempo a comer. Felizmente tinha o despertador a tocar a cada 1h30 para me ir lembrando de comer um bolo de arroz ou um gel. Durante a primeira parte da prova consegui seguir à risca o meu plano de nutrição/hidratação. Depois da parte de estrada em Carreiras entrámos na calçada romana e aí dei o meu primeiro e último bate cu. Por sorte tinha o telemóvel no bolso detrás que me amorteceu a queda (e felizmente não se partiu). A secção em que temos que percorrer uma grande extensão da calçada romana deu-me imenso gozo. Para muitos que participam nestas provas é um tipo de terreno aborrecido porque não tem grande "dureza". Para mim é dos que mais gosto, porque permite-me fazer o objectivo da prova (que é correr, não fazer escalada) e apreciar a paisagem. A parte do apreciar a paisagem não estava muito acessível mas ver as luzinhas do pessoal à frente ou atrás e as luzes das urbanizações ao longe é bem giro!

Quando cheguei ao terceiro abastecimento, ~25 km em Castelo de Vide, já ia mais calma porque estava com 3h50m e o tempo limite aconselhado era de 5h. Decidi ficar um pouco por ali e comer a minha tortilha de húmus, tomate e abacate. O Eduardo, do mundo da corrida, estava por lá e perguntei-lhe pelo meu irmão. Ah o teu irmão já passou há uma hora ou mais! Ok, apanhá-lo está mesmo fora de questão, sem problema. Apesar de não estar a fazer tempos de elite, estava a sentir-me bem confiante. Estava bem, não tinha nenhuma dor ou cansaço e o próximo abastecimento era já o Marvão, o primeiro com o verdadeiro tempo limite, de 9h.

Ao sair de Castelo de Vide fui encontrando caras conhecidas e durante um pouco fiquei com o Martinho Dias, que conhecia dos treinos do somais1km. Estávamos os dois a fazer 100 km pela primeira vez e cada um ia no seu passo. Eventualmente ele ficou para trás e fui apanhando outros corredores. Um pouco antes da subida do Marvão apanhei uma rapariga, a Gislaine Costa, e fiquei com ela quase até ao posto de abastecimento. Como vejo muito mal (apesar de ter óculos...), durante a noite não queria ir com os phones para ter os sentidos todos em alerta. Por causa disso tentava quebrar a monotonia ao trocar algumas palavras com as pessoas que ia encontrando. Falámos um pouco sobre outras provas e ela disse-me que tinha o namorado mais à frente e que ia bastante bem. Novamente, era outra estreante na distância dos 100 km e não sabia muito bem o que vinha aí. Tentei explicar-lhe de que esta prova tem duas partes completamente distintas. E que a partir dos segundos 50 km, a prova era outra e não tinha nada haver com o que estávamos a fazer. A noite rapidamente passou e quando começámos a subir para o Marvão já não precisámos dos frontais. A Gislaine conseguiu apanhar o namorado na subida do Marvão e seguiram os dois no seu passo e eu segui no meu. A paisagem até ao Marvão era lindíssima. Primeiro logo na base da subida, os campos estavam submersos num mar de nevoeiro. Depois, quando o sol começou a nascer e quando já estávamos a subir a calçada romana em direcção ao castelo, as diferentes tonalidades dos montes ao longe pareciam ter sido pintadas. Mesmo bonito! E nem assim sucumbi à minha grande tentação nas provas que é parar e tirar fotos. Desta vez estava lá para uma única missão. Fazer a prova para mim.

As fotos não são minhas, são do Francisco.


Cheguei ao Marvão, ~40 km, com 6h30m e depois de ter comido e bebido tanta coisa durante a noite, a primeira coisa que queria fazer era ir à WC. Nunca pensei tanto numa WC durante uma prova. Também nunca tinha-me preocupado tanto em comer e beber regularmente durante uma prova. O Francisco depois de ter dormido uma boa soneca depois de Carreiras, estava no Marvão à minha espera mas pensava que eu ia demorar mais tempo. Por isso não conseguiu tirar a bela da foto da minha subida. A primeira parte desta edição dos 100 km era o percurso dos 50 km do ano passado mas no sentido inverso. Por isso todo aquele trajecto não era novo para mim e por ter gostado tanto da prova ainda tinha algumas partes bastante frescas na memória. Enquanto comia a sopa no abastecimento do Marvão já estava a "rabujar" porque a parte difícil do Marvão era já a seguir e este ano seria feito a descer (adoro descidas......). Decidi que era uma boa altura colocar os phones e descer o Marvão com as minhas amigas Taylor Swift, Britney Spears e outras pérolas para me distrair. Não estava a resultar e estava a começar a ser ultrapassada por outros atletas. Não que isso me faça confusão, muito pelo contrário. Não tinha qualquer ambição em ficar à frente de X ou Y. Só que se começamos a ser ultrapassados por muita gente significa que vamos mal e que é melhor acordar. Decidi parar a banda sonora e tentar focar-me. 



Depois da descida do Marvão há uma mistura de trilhos corríveis com outros perto de zonas de água, alguns estilo abutres, com pedra e lama. Não me recordava daquela parte e outros corredores que estavam comigo também acharam que aquela macacada era nova. Apesar disso sabia que eventualmente vinha um estradão. O mais chato é que seria a subir. Mas não me importava, até porque parece que é uma das coisas que tenho algum jeito (feito ao meu passinho). Depois das subidas consegui correr um pouco até ao abastecimento dos 50 km, Porto de Espada. Metade da prova estava feita em 8h20m!



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Ultra Trilhos da Gardunha - Uma ode aos teimosos, façam a vossa prova! parte I

Pensei 1,2,3 1000 vezes se deveria escrever este post. Não sou menina de chover no molhado, odeio ter que pensar muito sobre o que já passou porque por muito tempo que pense o que está feito está feito (duuh). Para além disso, este blog começa a tornar-se mais no meu muro das lamentações do que no meu relato sobre as experiências que tenho em provas de corrida. Desde o último post dos Abutres já participei em mais algumas provas: 30 km Montes Saloios, 50 km de Sicó, Meia da Ponte, 44km Trail de Monsaraz. Todas elas correram lindamente, até ter chegado a esta que vou relatar: Ultra Trilhos da Gardunha.

É uma prova muito bonita mas também muito dura. Atrevo-me a dizer que a parte que "corri" (não foi bem correr porque não havia grandes extensões corríveis) era comparável à parte da prova dos Abutres que fiz. Aliás acho que corri mais nos Abutres do que na Gardunha. Não era algo que estava à espera. Logo no início já estava mal disposta, provavelmente devido à bruta sandocha que tinha comido com manteiga de amendoim e doce de morango com café com leite frio. Não era o meu pequeno almoço habitual, mas pensei em enfardar. Já dava para ver que a prova não ia ser fácil pela altimetria e então já estava a tentar compensar com o que conseguisse. Na semana anterior à prova poucos treinos consegui fazer porque estou na recta final da minha tese e chega o momento em que tem de ser prioritária. E o sentimento de culpa em largar o meu "bébé" por umas horas é muito grande. Portanto, poucos treinos + má disposição inicial = potencial desastre em formação.....

Novamente lá fui eu mais o meu irmão e quando o sinal da partida deu não tardou muito em ficarmos na cauda do pelotão. Mas não era nada de novo até porque prefiro fazer as provas de trás para a frente do que rebentar no início e ver toda a gente a ultrapassar-me. Prefiro ultrapassar uns poucos do que ser ultrapassada por muitos. Depois dos primeiros ~3 km em que dava para esticar as pernas começámos a subir a serra pedregulho atrás de pedregulho mas sempre com cursos de água muito próximos. A beleza do percurso dava para esquecer um pouco a dificuldade daquela parte inicial. Pensei que aquilo não poderia ser sempre assim e que mais cedo ou mais tarde poderia dar uso ao meu ponto forte, ir passito a passito, devagar devagarinho, a correr. Mas não, a dificuldade não diminuía. O meu irmão já bastante frustrado comigo tentava puxar por mim da melhor maneira que ele conseguia. Mas isso nem sempre é o melhor para nós, tartaruguinhas, e vou falar mais disso num post seguinte para que este não fique demasiado longo. Duvido que alguém venha ler isto, ver um post deste tamanho assusta. O meu namorado que o diga.

Quando chegámos ao primeiro abastecimento tentei trocar umas palavras com a organização sobre a dificuldade do percurso, se haveria luz ao fim do túnel. Palavra puxa palavra e um dos rapazes que lá estava entre dentes e com um sorriso maroto vira-se "ah as subidas vão começar a ser menos exigentes, mas quando começarem a descer para Alpedrinha (o segundo abastecimento) vão desejar que fosse a subir". E realmente assim foi. Mas também outro rapaz disse-me algo que me conseguiu animar "ah não se preocupe, demore o tempo que demorar, nós vamos estar na chegada para vos receber". Depois destas últimas palavras quase que me vieram as lágrimas aos olhos (sou muito sensível....) e deu-me algum ânimo.

Apesar de ir bastante devagar, começava a ficar um pouco melhor e mais animada e o percurso até à maldita descida até correu bem. A descida era feita em pedregulhos grandes onde não havia muita margem para meter o pé e alguns estavam bastante escorregadios por causa do curso de água que corria ali. A dificuldade dos Abutres veio-me à memória e não sei se foi de começar a ficar com medo dei um bate cu no meio dos pedregulhos e só parei de escorregar quando bati com os joelhos no pedregulho que estava à minha frente. Passados alguns dias posso dizer que ficaram apenas doridos, mas na altura o joelho direito doía-me imenso. Uma das senhoras bombeiras que estavam no final da descida (parece que já estavam a adivinhar) colocou-me uma pomada para as dores e lá fui eu.

Entre o segundo e terceiro abastecimento, o percurso era mais "acessível" mas sempre a subir. Houve uma parte no meio da serra que com a terra castanha molhada e as árvores, parecia que estava na Barkley. Os metros finais até ao terceiro abastecimento era um pouco "parvos" porque tínhamos que fazer subidas íngremes desnecessárias com percursos mais acessíveis mesmo ao lado. Uma das subidas não conseguia fazer e fiquei parada a meio deitada na terra, se não fosse um outro atleta a puxar-me tinha rebolado até ao início da subida macaca e parva. Chegámos ao terceiro abastecimento 20 minutos antes de atingirmos a barreira horária. O meu irmão já estava a ficar bastante frustrado com o percurso e se calhar por minha causa porque preferia que eu fosse com ele.

Quando saímos do abastecimento pensávamos que a subida até o ponto alto da serra seria feita no estradão que estava visível e nem olhámos para as fitas. Mas passado algum tempo estávamos a começar a achar estranho não haver macacadas e fitas para marcar o percurso nem vê-las. Lá tivemos que voltar para trás e fizemos 1 km a mais do que o previsto. O joelho estava a começar a doer outra vez e estava a ficar para trás. Até que vimos uma rapariga conhecida e que anteriormente já nos tinha apanhado e acompanhado numa parte do percurso e que tinha acabado de falar com o namorado que ia mais à frente. Dizia ela: "Ah a organização está a aconselhar parar nos 30 km se não chegarmos lá por volta das 14h30". Faltava cerca de 1h30 e o meu irmão achou que pelas palavras dela, ela iria desistir e como eu não estava em condições resolveu dar-me a chave do carro e ficar com ela. Lá foi ele sozinho e aproveitar a prova à sua maneira. A rapariga acabou por não desistir e ir também na dela, mas eu ia com bastantes dores no joelho e tinha que fazer uma descida "parva" (isto porque o estradão no qual eu e o meu irmão nos perdemos ia parar ao percurso da prova) no meio de pedras finas e soltas. Fiquei bastante tempo neste troço a pensar o que deveria fazer. Se a dor seria daquelas coisas que os "ultra" corredores têm que aguentar ou se seria mesmo melhor parar. Mas se quisesse continuar como é que iria resolver a situação de ter a chave do carro do meu irmão?? Eventualmente fui apanhada por um senhor que ia desistir aos 30 km porque também se tinha lesionado. Fomos a conversar sobre provas que já tínhamos feito e sem darmos por isso já estávamos no abastecimento dos 30 km.

Logo a seguir surgem os últimos atletas, o vassoura e uma senhora que não me irei esquecer e que vai ser uma das minhas inspirações, a Célia. Não a conheço e não sei qual é a sua história, mas quando começaram a falar sobre ela senti que havia ali muito carinho e respeito pelo que ela faz. Ficou muito pouco tempo no abastecimento e assim que lhe perguntaram se ela queria desistir deu corda aos sapatos e saiu dali. Pelo que percebi ela faz provas bastante longas e duras. É sempre das últimas a chegar, mas acaba-as. Há uns tempos tinha feito uma prova de 200 e tal km, se me lembro bem do que ouvi, na Itália e à sua maneira acabou-a. E acabou os ultra trilhos da Gardunha à maneira dela. E isso vai ser uma das coisas que vou interiorizar. Enquanto não me mandarem embora, vou continuar, sozinha à minha maneira, a fazer a minha prova.





domingo, 28 de janeiro de 2018

Ultra Trilhos dos Abutres - DNF, DO NOTHING FOOLISH

Decidi não continuar.... 



Pensei duas, três, e não sei quantas vezes se deveria escrever este post porque não quero que sirva como uma maneira de arranjar desculpas, mas tenho a certeza de que se tivesse acabado esta prova faria um breve resumo para que ficasse registado.

Para além disso, apesar de não escrever muito aqui, quero que este blog seja uma representação realista, e por vezes há dias bons e outras vezes há dias maus. E ontem foi um dia mau.

Então vamos lá.... já não fazia provas de trilhos desde Agosto e apesar de todos os fins-de-semana desde meados de Dezembro, fazer um treino longo de trilhos, não estava muito calejada. Nos treinos consegue-se sempre arranjar maneira da parte "difícil" não ser assim tão má (aah e tal posso ficar lesionada, tenho que ter calma).

Nunca tive grande ambição imediata em ir aos Abutres, porque tinha (e continuo a ter) muito respeito pela prova. Sempre achei que não tinha estaleca e não era feita para esse campeonato. Este ano o meu irmão aventurou-se em meter o nome dele no sorteio para a distância dos 50 km e eu só naquela de ver no que dava resolvi meter o meu também. O meu nome foi dos últimos a sair e na altura fiquei apavorada sem saber o que fazer. Quando surgiu a altura de fazer o pagamento já não havia volta a dar, ia aos Ultra Trilhos dos Abutres. Treinei e no último mês antes da prova arranjei uma super treinadora que me fez um plano de treinos que segui quase à integra. 

Quando chegámos a Miranda do Corvo dava para perceber que os Trilhos dos Abutres não são uma prova qualquer. A quantidade de pessoal envolvido, as instalações enormes e sempre com a marca "Trilhos dos Abutres" mostrava que era uma prova muito séria. Tão séria que não me deixaram levantar o dorsal apenas com a mensagem no telemóvel, tinha que ter o meu documento de identificação e mostrar que depois de receber o dorsal também recebia a sms de confirmação.


Na partida tivemos que mostrar todo o equipamento obrigatório e depois fomos encaminhados (enchouriçados) para uma tenda onde esperámos. A alguns minutos antes da partida somos encaminhados para o pórtico e dado o sinal lá fomos nós! Os primeiros kms são bastante fáceis, por ruas, trilhos fáceis e passadiços. Os passadiços estavam escorregadios e havia muita a gente a querer andar logo ali e por isso perdeu-se algum tempo desnecessário. Mas de nada valia esticar-me ali porque a primeira subida estava à minha espera. Não era técnica, mas era longa e tinha um brinde do caraças.


Depois da subida, chegamos ao Templo Ecuménico e somos presentados com uma vista espetacular de trazer lágrimas aos olhos. A dimensão dos montes, as cores e as nuvens revelavam a imensidão da serra. Mas a preocupação em correr era tanta que nem pensei em parar para apreciar o que estava a ver. Começamos logo a descer e novamente a paisagem estava ali para quem quisesse apreciar. Tinha que parar:


Estava tudo a correr muito bem e nunca me passou pela cabeça que não iria acabar. Ia com uma missão: chegar aos 17 km com 2h30 para que depois tivesse tempo de fazer os 11 km seguintes até às 5h30m. A partir do km 10 começam a surgir as pedras e os obstáculos que me fazem perder imenso tempo. O meu irmão assim que percebeu que eu não ia conseguir "computar" a complexidade do terreno mais rapidamente do que normalmente faço, foi-me deixando para trás. Sim, era giro irmos os dois e emocionalmente deixou-me um pouco em baixo. Mas imediatamente a razão falou e não havia nada que ele pudesse fazer, por isso ficar comigo só iria estragar a sua experiência. Para além disso, nunca tive sozinha e metia sempre conversa com as pessoas que vinham comigo (quando surgia a oportunidade).

O tempo passava e as pedras iam sendo mais e a lama (mesmo sem grande chuva) estava sempre lá. Receita certa para a minha insegurança. A minha capacidade em fazer as subidas íngremes sem grande dor ou cansaço, mesmo que devagarinho, aumentava a minha confiança (ainda bem que segui o plano de treinos!) e de certa forma começava a compensar a insegurança. Mas as subidas pareciam muito pequenas para as descidas que fazia. E a minha pandice não me deixava correr ou ser mais ágil nos trilhos de pedras. Cheguei ao primeiro abastecimento, dos 17 km, com 2h46m e já começava a ficar preocupada. Lembrei-me do que a minha treinadora me disse e fiquei o mínimo possível ali. Enchi os soft flasks, bebi um bocado de isotónico, comi um bocado de banana e laranja e lá fui eu com o copo de água na mão. Uma amiga das corridas veio comigo e foi a minha companhia nos kms seguintes. Os trilhos até às eólicas eram novamente mais fáceis e mesmo a subida não era nada complicada (apesar de ser o ponto mais alto da primeira parte). Voltava a confiança. Mas depois tudo o que sobe tem de descer e aí lá foi a confiança outra vez. Não me lembrava do perfil de altimetria e estava sempre a pensar no momento em que iria parar de descer. Infelizmente esse momento estava apenas no posto de abastecimento seguinte, e a minha ansiedade em querer parar de descer e ganhar tempo quando pudesse correr não parava de aumentar. Já não estava a divertir-me e apesar da corrida envolver algum sofrimento e tolerância, a duração da frustração estava a ser bem maior do que a da alegria. Nas descidas fui apanhada por diversas pessoas, umas que tinham a tolerância e a paciência em deixar-me descer ao meu ritmo e outras (poucas) menos tolerantes que lançavam palavras de exasperação para o ar (eu só pensava: eu também quero chegar a tempo porra! tivesses corrido mais para não me apanhares....). As descidas iam envolvendo cada vez mais a passagem de pedras todas enlameadas e com pouca margem de manobra. Não podia perder tanto tempo a pensar onde pôr o pé. A irritação começava a ganhar e o tempo a passar... já estava a analisar toda a prova: ora esta parte é a mais fácil e nem sequer consigo ter reflexos rápidos o suficiente para não parecer uma mariquinhas tão grande. Se a parte pior ainda está para vir (a parte pior é entre os 20 e 40 km), não vou conseguir sequer mexer-me e vou ficar minutos a pensar o que fazer. Estava decidida: ia parar. Quando a decisão surgiu na minha mente, as lágrimas quase que me vieram aos olhos (ainda bem que estava sozinha.... por uns segundos... ai que vem ali alguém, não chores....). Não porque não estava a gostar, mas porque não estava cansada não tinha dores em lado nenhum, mas mesmo assim ia ficar por ali. Era uma nulidade naquele tipo de terreno e com as pessoas todas a passar e a ficar sozinha, poderia criar uma situação muito má. Pensando friamente no que estava a acontecer parecia a decisão responsável a tomar. Depois de estar decidida comecei a andar ainda mais devagar de forma a não ter que dizer alto e bom som, quero desistir. Preferia ser barrada no posto de controlo do que ter que tornar a decisão real. Quando cheguei à mítica descida que temos que ir agarrados a cordas (estilo rapel) sentei-me e esperei. Quando começaram a surgir mais atletas que vinham atrás de mim com pressa para não serem barrados decidi descer uma parte com eles. A meio voltei-me a sentar, mas havia um grupo de pessoas da organização a ver e a dar força. Não conseguia fazer-lhes aquilo, e decidi descer ao meu ritmo lentinho. Quando cheguei em baixo disse-lhes o mais rapidamente possível para não desatar a chorar: "obrigada malta, mas vou ficar por aqui". Eles não queriam saber e deram-me força para ir correr os últimos metros para chegar antes de ser barrada para pensar melhor.

Fui a última pessoa a conseguir passar o controlo de tempo. Os atletas que vinham imediatamente atrás de mim foram barrados, sem qualquer contestação e tolerância. Depois de ter que dizer as palavras, tive que devolver o meu dorsal. O pessoal da organização foi 5* a tentar animar-me e a dar-me tratamento "vip" enquanto esperava pelo autocarro (sopinha da pedra... estava mesmo boa!). Eu tentei ir na onda e largava umas piadas para não me ir abaixo. Depois todos os atletas barrados naquela altura, e eu, fomos no autocarro até à chegada e lá estava eu onde tudo tinha começado 6h antes.

Os Abutres sempre estiveram na minha mente como algo intangível, só para os melhores.
É difícil? É, muito. É impossível? Não, mas exige muito treino específico e resistência. A resistência estava lá, pois no final não estava cansada. Os calos mentais não. E apesar de ter passado quase um dia, vai ser algo que me vai ser difícil de engolir.... O chato agora é ter uma t-shirt toda gira e boa e estar "manchada" com esta prestação.... ;)

Eu não sou uma atleta, nem por sombras. Vou correndo (daí o meu blog ser running e não runner). As distâncias que ambiciono fazer levam a que tenha que treinar frequentemente, para ganhar resistência, mas não é nada do outro mundo. Eu compreendo que para alguns parece que estou a levar isto tudo muito a sério, mas a verdade é que isto não é nada. A sério. Venham a uma prova de trilhos e vejam a quantidade de pessoas e os tempos que conseguem fazer. Infelizmente a nossa vida quotidiana trás outras responsabilidades que levam a que actividade física para muitos seja muito reduzida ou mesmo ignorada. Já não precisamos de fugir de predadores nem andar kilómetros para conseguirmos a refeição do dia. Por isso ver treinos e provas destas quase que parece coisas para malucos. Mas o nosso corpo é fantástico, é só uma questão de o utilizarmos. E as recompensas são mais do que apenas físicas.... Mas isto seria tema para outra conversa e não quero "converter" ninguém à prática de exercício físico.

Bem o post já vai longo, mas acho que a mensagem principal ficou!